N° 0984 - A CASA NO MANGUEZAL - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
O dia começava com a mesma imperfeição que marcava a pequena casa junto ao mangue. As paredes descascadas, a cortina balançando ao sabor do vento, o cheiro agridoce da lama tudo parte de um cotidiano que não pedia licença para existir. O sol surgia torto no horizonte, tímido, como quem não tem certeza se é bem-vindo. Ela caminhava ao longe, atravessando o terreno irregular com a franja caindo sobre o rosto escondendo não apenas os cabelos despenteados, mas os pensamentos que pareciam pesados naquela manhã. O frio não vinha só da brisa úmida que cortava a pele. Vinha de dentro. Da solidão que se instala devagar, sem avisar, e ocupa os cantos da casa como mofo que ninguém vê crescer. O vento entrava pelas frestas das janelas carregando a sensação de um vazio que palavras não sabem preencher. Sentados na penumbra, conversávamos pouco com receio de romper o frágil equilíbrio que ainda restava entre nós. Cada movimento era uma forma silenciosa de resistir. A casa era um espelho de noss...









