N° 0982 - O TOCA FITAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Direto de Mayandeua A fita ficava guardada na gaveta. Era fina. Era frágil. Tinha um cheiro leve de plástico e poeira esse cheiro que ninguém esquece e ninguém consegue descrever direito. Cada fita guardava um tempo inteiro. Não era só música. Era dia vivido. Era tarde parada. Era voz que não voltava mais. O toca fitas ficava em cima da cômoda. Não era novo. Tinha marcas de uso arranhões, desgastes, a memória impressa no corpo do objeto. O botão do play já não voltava direito. Mesmo assim, funcionava. Sempre funcionava. A infância cabia ali dentro. Cabia inteira. Bastava apertar um botão. O quarto era pequeno. A parede tinha marcas de umidade. O chão era frio de manhã. O sol entrava pouco. Ainda assim e isso é o que importa aquele espaço bastava. O toca fitas ficava perto da janela. A luz batia nele no meio da tarde. A casa ficava quieta nesse horário. O calor pedia silêncio. O corpo pedia sombra. O mundo parecia andar mais lento e talvez andasse mesm...









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