N° 1013 - O GRITO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Ela já não suportava o silêncio fabricado das cidades. As janelas de vidro lhe mostravam um céu sem cheiro, um vento sem memória e um horizonte interrompido por concreto. O Sol ainda nascia todos os dias, mas parecia preso dentro de fotografias repetidas, como se alguém tivesse decidido que bastava olhar para uma tela para conhecer o mundo. Carregava dentro de si um desejo antigo. Queria partir para qualquer lugar onde pudesse gritar o próprio nome e ouvir a natureza responder. Não buscava plateias. Procurava apenas o eco dos mangueiros, o rumor das águas e a companhia dos pássaros que nunca aprenderam a mentir. Sonhava encontrar um lugar onde seus olhos reaprendessem a ver. Queria descobrir um Sol que queimasse a pele com delicadeza, que desenhasse sombras diferentes a cada amanhecer. Desejava contemplar a água sem filtros, sem molduras, sem propagandas. Queria enxergar o brilho de um rio que não coubesse em fotografias. Queria sentir o mar respirando diante dela, livre, como se...









