N° 0984 - A CASA NO MANGUEZAL - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA


O dia começava com a mesma imperfeição que marcava a pequena casa junto ao mangue. As paredes descascadas, a cortina balançando ao sabor do vento, o cheiro agridoce da lama tudo parte de um cotidiano que não pedia licença para existir. O sol surgia torto no horizonte, tímido, como quem não tem certeza se é bem-vindo.

Ela caminhava ao longe, atravessando o terreno irregular com a franja caindo sobre o rosto escondendo não apenas os cabelos despenteados, mas os pensamentos que pareciam pesados naquela manhã.

O frio não vinha só da brisa úmida que cortava a pele. Vinha de dentro. Da solidão que se instala devagar, sem avisar, e ocupa os cantos da casa como mofo que ninguém vê crescer. O vento entrava pelas frestas das janelas carregando a sensação de um vazio que palavras não sabem preencher. Sentados na penumbra, conversávamos pouco  com receio de romper o frágil equilíbrio que ainda restava entre nós. Cada movimento era uma forma silenciosa de resistir.

A casa era um espelho de nossas vidas. Redes pendiam das paredes manchadas, um rádio velho chiava canções pela metade, o fogareiro insistia em apagar. Ainda assim havia uma força invisível naquele espaço  uma teimosia em existir apesar de tudo. Do lado de fora, o mangue despertava lentamente. A lama viva abrigava milhares de seres, enquanto as águas subiam e desciam num ritmo que parecia não pertencer ao tempo  indiferente à nossa fragilidade, fiel apenas a si mesmo.

O mangue era um lugar de contradições. Ao mesmo tempo hostil e fértil, desafiador e generoso. Enquanto ela olhava pela janela para aquele labirinto de raízes e lama, eu me lembrava das noites em que, mesmo em sua dureza, aquele lugar parecia oferecer mais respostas do que perguntas.

Minha mente vagou para o passado. Para o dia em que a vi pela primeira vez  dançando descalça numa festa de vilarejo, os pés tocando a terra com uma leveza que desafiava a dureza do chão. Foi ali que me apaixonei por ela. Pela forma como parecia pertencer ao mundo sem nunca ser dominada por ele. Era difícil conciliar essa lembrança com a mulher que agora carregava um peso silencioso no olhar.

Foi ela quem quebrou o silêncio, com uma voz quase sussurrada:

— O vento te roubou o sono?

— E o teu, o que levou? Devolvi, buscando alguma conexão.

Seu suspiro era ao mesmo tempo alívio e resignação. Do lado de fora, o mangue parecia responder  lembrando-nos de que a vida, mesmo entre dificuldades, continuava a pulsar sem pedir nossa permissão.

O cigarro entre meus dedos apagou-se completamente. Mas a brisa que antes parecia cortante agora tinha algo de suave  como se o próprio ar tivesse decidido ser mais gentil. O sol tingia o céu. Aves cortavam o reflexo da água. E eu pensei: talvez nossa vida fosse assim como o mangue  difícil, cheia de raízes retorcidas, mas fértil. Repleta de possibilidades escondidas na lama.

Ela voltou a me olhar. E pela primeira vez naquela manhã, parecia menos pesada. A natureza ao nosso redor, em seu ritmo cíclico e antigo, nos lembrava que as dificuldades não eram o fim da história eram o solo onde a resistência e a esperança brotavam, teimosas, como raízes que não conhecem outra direção senão para cima.

A vida não era perfeita. Mas bastava que continuássemos.

O mangue, com sua lama viva e suas águas mutáveis, sabia disso há muito mais tempo do que nós.

Ficamos ali por mais um tempo, sem pressa.

O dia avançava devagar. O som das águas subindo ocupava o espaço onde antes havia silêncio. Era um som constante. Seguro. Como se dissesse que algo seguia no lugar, mesmo quando tudo dentro parecia fora de eixo.

Ela passou a mão pela janela. Sentiu a madeira áspera. Olhou de novo para o mangue. Dessa vez, sem fugir.

— A gente fica, disse ela.

Não era pergunta.

Era decisão.

Eu apenas concordei com a cabeça.

Ficar não era escolha fácil. Nunca foi. Mas havia uma espécie de dignidade nisso. Permanecer quando tudo convida a ir embora. Sustentar o que ainda respira.

O rádio chiou outra vez. Uma música surgiu, falhada, mas inteira o suficiente para ser reconhecida. Ela sorriu de leve. Quase nada. Mas suficiente.

O fogareiro acendeu na segunda tentativa.

A casa não mudou.

O mangue não mudou.

Mas algo em nós encontrou lugar.

Lá fora, a maré subia.

Aqui dentro, também.

E isso bastava.

- Assim narrou Primolius!


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0984

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