N° 0986 - A ÚLTIMA DANÇA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

 


(Um filme )

Direto de Mayandeua) 

Ela dançava como quem respira sem pensar, sem esforço, como se o corpo soubesse sozinho todos os passos que a mente jamais aprenderia. O palco do cabaré era pequeno demais para ela, mas era o único que tinha. Mademoiselle Antoinette, diziam os cartazes. Mas o nome verdadeiro ninguém sabia. Talvez nem ela mesma se lembrasse mais.

As saias rodavam, leves como nuvens, pesadas como mentiras. Cada movimento era uma promessa que não seria cumprida. Cada giro, uma despedida. Os cavalheiros na primeira fila ajeitavam as gravatas, fumavam charutos caros, riam alto demais. Eles achavam que estavam assistindo a um espetáculo. Não sabiam que eram eles o espetáculo.

Ao fundo, o pianista tocava a mesma valsa de sempre. Ele conhecia apenas três músicas, mas tocava-as com tanta convicção que ninguém reclamava. As paredes do salão eram decoradas com querubins gordos e felizes,  anjos que nunca haviam pisado na rua, nunca haviam sentido fome, nunca haviam precisado dançar por dinheiro.

Antoinette sabia que sua sombra no chão era mais honesta do que seu sorriso. A sombra não mentia. Mostrava o cansaço das pernas, o peso dos anos disfarçado de leveza, a solidão vestida de festa.

Quando tinha dezessete anos, ela sonhava com a Ópera de Paris. Com salas imensas, aplausos infinitos, rosas vermelhas aos montes. Agora, aos trinta e dois, sonhava apenas com um dia de folga. Com sapatos que não machucassem. Com dormir sem música na cabeça.

— Mais uma, querida! Gritava alguém da plateia, voz embriagada de champanhe barato.

E ela dançava mais uma. Sempre havia mais uma. O leque se abria e fechava como asas de borboleta presa. Os braços desenhavam arabescos no ar enfumaçado. Os pés, amarrados em fitas que pareciam cordas, executavam passos que seu corpo decorara há tanto tempo que já eram automáticos como respirar.

O maestro olhava para ela com aquela expressão,  meio pena, meio desejo, meio nada. Todos olhavam para ela assim. Como se ela fosse uma coisa bonita mas triste. Uma flor murchando ainda no vaso. Um pássaro com asas cortadas cantando mesmo assim.

Quando a música finalmente parou, ela fez sua reverência. A plateia aplaudiu. Alguém jogou uma moeda no palco. Ela não abaixou para pegar. Tinha orgulho suficiente para isso, pelo menos.

Nos bastidores, tirou os sapatos e massageou os pés inchados. Amanhã seria igual. E depois de amanhã também. E todos os dias até que suas pernas não aguentassem mais, até que o público se cansasse, até que aparecesse uma mais jovem, mais bonita, mais disposta a sorrir enquanto dançava sobre a própria dor.

Mas por enquanto, ela ainda era Mademoiselle Antoinette. Ainda tinha seu palco. Ainda tinha sua dança.

Ainda tinha sua sombra fiel no chão, a única que nunca a abandonaria.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0986


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