Nº 0991 - OS PÁSSAROS DE SAL - SÉRIE: FÁBULAS DE MAYANDEUA
Todas as manhãs ele voava sobre a praia. Deslizava rente às ondas, atravessava o vento salgado e observava o horizonte, esperando por uma resposta para uma pergunta que jamais conseguira formular.
Foi num amanhecer silencioso que tudo mudou.
Num galho solitário, voltado para o nascente, repousava um bem-te-vi. O sanhaçu ouviu o vento antes de ouvir o canto. Viu a luz antes de ver as penas douradas. E, quando seus olhares se encontraram, o tempo pareceu esquecer de seguir adiante.
Nenhum deles falou.
Nenhum deles cantou.
Mas naquele silêncio existia algo mais antigo que as palavras.
Era como se tivessem se procurado durante muitas estações, atravessando chuvas, secas, marés e luas, apenas para finalmente se encontrarem naquele instante.
A partir daquele dia, tornaram-se inseparáveis.
Voavam sobre os manguezais ao entardecer. Descobriam trilhas ocultas na mata. Descansavam em galhos banhados pelo sol e compartilhavam melodias que pareciam nascer de antigos carimboleiros de Maya. Quando cantavam juntos, os outros pássaros interrompiam seus voos.
As cigarras diminuíam o ritmo.
Até o vento parecia mais devagar para ouvi-los.
O amor deles transformava tudo ao redor.
Mas nem toda criatura consegue contemplar a felicidade sem sentir o peso da própria ausência.
Nas profundezas do manguezal vivia a feiticeira Lyssara.
Seu nome era conhecido apenas pelas árvores mais antigas. Diziam que ela havia nascido de uma lágrima esquecida pela lua. Bela como as noites estreladas e solitária como os lugares onde ninguém chega, Lyssara aprendera desde cedo a conviver apenas com a própria sombra.
Nunca recebera afeto.
Nunca fora escolhida.
Nunca ouvira alguém dizer que permaneceria ao seu lado.
Quando viu o sanhaçu e o bem-te-vi, sentiu algo que não soube nomear.
Primeiro veio a admiração.
Depois a tristeza.
Por fim, a inveja.
Observava os dois escondida entre as árvores. Via como se olhavam. Como dividiam os silêncios. Como pareciam completos apenas por estarem juntos.
Aquilo a feria mais profundamente do que qualquer lâmina.
Então decidiu destruir o que não podia possuir.
Na primeira noite de lua cheia, reuniu os antigos encantamentos esquecidos pela mata do mangue. O céu escureceu. O vento cessou. O mar ficou imóvel como um espelho.
Quando os dois pássaros pousaram sobre uma duna iluminada pela lua, Lyssara lançou seu feitiço.
Um nevoeiro prateado ergueu-se da areia.
As estrelas desapareceram atrás das nuvens.
E, no exato instante em que os amantes se olhavam, seus corpos começaram a mudar.
As penas transformaram-se em cristais.
As asas tornaram-se brancas.
Os movimentos cessaram.
Em poucos segundos, restavam apenas duas estátuas de sal, eternamente voltadas uma para a outra.
A mata inteira chorou.
O mar avançou até seus pés e recuou em silêncio.
Os pássaros esconderam seus cantos durante muitas luas.
Mas algo inesperado aconteceu.
O feitiço aprisionou seus corpos, porém não conseguiu tocar aquilo que os unia.
Com o passar dos anos, as estátuas tornaram-se um santuário.
As dunas cresceram ao redor delas.
Flores nasceram onde antes havia apenas areia.
Os viajantes que passavam pelo local sentiam uma estranha paz, como se o amor dos dois continuasse vivo dentro do sal.
Até hoje, nas noites de lua cheia, o vento atravessa o santuário produzindo sons suaves, semelhantes a vozes distantes.
Os mais antigos afirmam que são os cantos do sanhaçu e do bem-te-vi, ainda ecoando pela ilha.
E Lyssara?
Ela continua voltando.
Caminha em silêncio ao redor das estátuas.
Observa aquilo que tentou destruir.
Com o tempo, compreendeu que sua magia jamais foi capaz de vencer o amor.
Conseguiu apenas torná-lo eterno.
As árvores dizem que ela nunca chora.
Mas toda vez que se aproxima das estátuas, folhas secas começam a cair ao seu redor, como se a própria floresta lamentasse a tristeza que ela carregou durante toda a vida.
Assim, o amor que desejou apagar tornou-se sua única companhia.
E o castigo mais profundo não foi a solidão.
Foi descobrir, tarde demais, o valor daquilo que nunca soube cultivar.
Moral: O amor verdadeiro pode ser ferido, afastado ou transformado, mas nunca destruído. Quanto mais tentam apagá-lo, mais profundamente ele se grava na memória do mundo.
- Assim narrou Primolius...


