N° 0988- ROUPA SECANDO NO VARAL - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Existe um momento do dia que quase desapareceu das cidades. Um instante simples. Quieto. Tão comum que ninguém dava importância. O momento em que a roupa secava no varal. Antigamente, o quintal tinha função. Não era apenas espaço vazio entre muros. Era território da casa. Lugar onde o tempo caminhava devagar.
O varal atravessava aquele cenário como parte natural da vida. Estava ali entre a árvore, o tanque e o rádio ligado baixo em alguma emissora distante. As roupas recém-lavadas balançavam ao vento enquanto o sol fazia seu trabalho sem ninguém perceber.
E havia o cheiro.
Talvez seja isso que mais ficou na memória de quem viveu aquele tempo.
O cheiro chegava antes da visão. Vinha pelo corredor da casa, atravessava a janela, misturava-se ao café da manhã e ao barulho das panelas na cozinha. Era cheiro de sabão simples, de água limpa, de tecido aquecido pelo sol.
Nenhuma máquina conseguiu copiar aquilo.
Hoje as roupas saem secas em poucos minutos. Quentes. Prontas. Mas falta alguma coisa. Falta o vento.
O vento era parte do processo.
Ele passava entre os lençóis como quem conversa. Fazia as roupas dançarem pequenas coreografias silenciosas. Um pano tocava o outro de leve. Havia um som curto. Um barulho tímido de tecido batendo no tecido.
Era um relógio invisível da casa.
As mães e avós olhavam para o céu para calcular a chuva. Corriam quando o tempo fechava. Recolhiam as peças ainda mornas no fim da tarde. Dobravam tudo com calma sobre a mesa.
A roupa guardava o dia dentro dela.
Guardava o calor do sol.
Guardava o cheiro do quintal.
Guardava até o silêncio da tarde.
Quem cresceu nesse cenário sabe que havia conforto nisso. Não apenas conforto físico. Era outra coisa. Uma sensação de casa funcionando no ritmo certo.
A infância mora muito nesses detalhes pequenos.
Mora no lençol encostando no rosto enquanto a criança corria pelo quintal.
Mora nos pregadores coloridos presos na boca enquanto alguém pendurava roupa.
Mora naquele vento atravessando o corredor da casa.
Hoje quase ninguém percebe essas ausências. O mundo acelerou até os gestos domésticos. Tudo precisa ficar pronto rápido. O tempo virou inimigo.
Mas a roupa secando no varal ensinava justamente o contrário.
Ensinava espera.
Nada secava antes da hora.
Nem o pano.
Nem a vida.
Talvez por isso a memória ainda guarde com tanto cuidado aquele cheiro antigo. Porque ele carregava uma espécie de paz que desapareceu aos poucos sem fazer barulho.
E às vezes ela volta.
Num fim de tarde qualquer.
Num quintal esquecido.
Num lençol branco atravessando o vento.
Então a lembrança acende de novo.
E por alguns segundos, a vida parece respirar mais devagar.
- Assim narrou Primolius numa manhã em Mayandeua.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0988


