N° 0990 - MARIE A CAPITÃ - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Marie não navegava em águas comuns. Seu caminho cruzava as correntes luminosas do Mar Celeste, onde rios esquecidos cortavam o vazio entre estrelas antigas. Sua embarcação, a Argos-Luz, havia sido construída com ossos de baleias estelares e velas feitas do tecido rarefeito das nebulosas. O navio se movia pelo sopro silencioso dos Portais do Universo.
Entre todos os navegadores do universo, Marie era uma das mais respeitadas. Trazia tatuado nas próprias retinas um mapa vivo, capaz de revelar passagens escondidas entre mundos esquecidos. Onde outros enxergavam apenas escuridão, ela percebia sinais antigos, ruínas de civilizações apagadas e o brilho de planetas que ainda nem haviam recebido nome entre os humanos.
Mas existia um lugar que nem mesmo os grandes navegadores ousavam atravessar.
O Mar dos Portais de Mayandeua.
Dizia-se que suas águas não pertenciam ao tempo comum. Ali, as estrelas afundavam lentamente como lanternas dentro da maré. Criaturas encantadas surgiam sob a névoa prateada. Havia serpentes feitas de espuma luminosa, pássaros transparentes que cantavam em idiomas perdidos e gigantes adormecidos sob as correntes profundas.
Os mais antigos contavam que o próprio mar guardava memórias dos deuses desaparecidos.
Numa noite sem luas, a Argos-Luz foi engolida pela Grande Calmaria de Sombras, uma região silenciosa do Mar de Mayandeua onde a esperança congelava antes mesmo de nascer. O motor de fótons falhou. As luzes do convés estremeceram. O vazio pressionava o casco de marfim como se o universo inteiro respirasse sobre eles.
A tripulação caiu em desespero.
Alguns rezavam.
Outros choravam em silêncio.
Marie permaneceu imóvel diante do horizonte escuro. Seus olhos refletiam constelações inteiras.
Então ouviu o chamado.
Das águas do Mar de Mayandeua surgiram os Encantados da Maré. Seres antigos caminhavam sobre o brilho líquido sem afundar. Seus corpos pareciam feitos de vento, sal e estrelas partidas. Entre eles estava uma criatura gigantesca coberta de algas e luz azulada nos olhos.
Ela falou sem mover a boca.
“Apenas quem conhece o peso da travessia pode atravessar o vazio.”
Marie compreendeu.
Sem hesitar, arrancou um único fio de cabelo. Não era um fio comum. Era feito de fibra óptica, memória e coragem acumulada em centenas de viagens. Quando lançou o fio sobre a escuridão, ele brilhou como um pequeno sol atravessando o nada absoluto.
O caminho surgiu.
As águas do Mar de Mayandeua começaram a se abrir lentamente diante da Argos-Luz. Os Encantados observavam em silêncio enquanto o navio avançava entre correntes luminosas e montanhas de névoa cósmica.
As sombras haviam desaparecido.
Transformaram-se em poeira de estrelas espalhada sobre o infinito.
Marie permaneceu firme no convés.
Ela não precisava de bússolas.
Não precisava de mapas de metal.
Ela própria era o norte.
E enquanto existisse um mistério escondido além do vazio, seria sua mão no comando da Argos-Luz que manteria o universo em movimento.
- Assim narrou Primolius em uma tarde chuvosa na ilha.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0990


