N° 0985 - PORTO DOS VENTOS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Elyasi chegou ao Porto dos Ventos . Diferente dos portos comuns, ali não havia mar; as embarcações, feitas de carvalho leve e velas de seda, flutuavam sobre um oceano de nuvens perpétuas. Naquelas estruturas, o vento não era apenas clima era destino. Elyasi buscava o Vento Leste, o único capaz de devolver a voz a quem a entregara por amor. No cais flutuante, o Velho Sopro guardião de pele rugosa entregou-lhe um búzio de prata. "O vento não se comanda, Elyasi. Ele se convida", alertou o ancião. Ao soprar o instrumento, um redemoinho dourado surgiu das profundezas do nevoeiro, balançando os navios ancorados em uma valsa desordenada.
O Porto dos Ventos revelou sua magia: Elyasi sentiu as palavras vibrarem novamente em sua garganta. Ele não precisava mais de barcos. Com o peito cheio de ar e a alma leve, percebeu que o porto era apenas o começo agora, ele próprio era a vela e o caminho. Então o Velho Sopro apontou para o horizonte onde as nuvens se abriam como cortinas. "Há um lugar", disse o ancião em voz baixa como quem sabe que o vento já carrega o que importa , "que nem o Vento Leste ousou cruzar duas vezes. O Mar de Maya."
Elyasi olhou. Além do porto flutuante, além do último mastro e da última âncora perdida no nevoeiro, havia algo que não era mar nem céu, mas os dois ao mesmo tempo uma extensão viva, de um azul que pulsava como coração adormecido. As ondas não quebravam: ondulavam em silêncio, como se guardassem dentro delas tudo o que o mundo havia esquecido de dizer.
- "Quem é Maya?", perguntou Elyasi.
O ancião sorriu com os olhos. "Maya não é quem. Maya é o que existe entre uma palavra e outra. Entre o amor que ficou e o amor que ainda não chegou."
Elyasi deu um passo. Depois outro. Seus pés abandonaram o cais e, para sua surpresa, não caíram flutuaram sobre aquelas águas densas de memória. O Mar de Maya não molhava, mas atravessava: entrava pelos poros, pelas costelas, pelos silêncios que o rapaz carregava desde o dia em que dera a voz em troca de um abraço que durou menos que um dia de maré.
No centro daquele mar impossível, uma ilha pequena emergia coberta de flores que não tinham nome em nenhuma língua conhecida. E no meio das flores, sentada sobre uma pedra cor de lua, uma figura bordava o ar com os dedos, bordava palavras que Elyasi havia perdido, uma a uma, como quem reencontra cartas antigas numa gaveta que esqueceu de abrir.
Ela não levantou os olhos. Apenas disse, com a voz que ele havia entregado e que agora voltava transformada:
- "Demorou."
E Elyasi entendeu, ali, diante do Mar de Maya, que não havia buscado o Vento Leste para recuperar a voz. Havia buscado a coragem de usá-la. O vento dera o caminho; o mar, o espelho. E Maya dera o que nenhum porto poderia ancorar: a razão de falar.
Voltou ao Porto dos Ventos ao anoitecer, com a alma cheia de um vocabulário novo feito de ondas, silêncio e flores sem nome. O Velho Sopro não perguntou nada. Apenas recolheu o búzio de prata e o guardou no bolso do casaco, como quem guarda um segredo que já cumpriu sua missão.
Os navios de carvalho seguiram flutuando. O vento soprou do Leste mais uma vez. E o porto, fiel ao seu destino, continuou sendo o começo de todas as histórias que ainda precisavam de voz para existir.
- Assim narrou Primolius em uma trade de chuva...
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0985


