N° 0989 - A MATA DOS PEQUENOS GRANDES DIAS - SÉRIE: FÁBULAS DE MAYANDEUA



Lá  na mata encantada do Vale da Princesa, onde a luz atravessava as folhas dos mangueiros, vivia um pequeno esquilo chamado Quatipurú. Seu nome vinha dos velhos sons da mata. Os pássaros da ilha diziam que significava “aquele que guarda a calma das árvores”.

Quatipurú morava dentro de uma grande raiz coberta de musgo. Sua casa era simples e acolhedora. Havia uma mesa de madeira gasta pelo tempo, uma chaleira vermelha sempre aquecida e pequenos galhos pendurados nas paredes, como se a própria mata  decorasse o lugar.

Todas as manhãs, ele subia rapidamente até a superfície. Primeiro observava o vento passando entre as folhas altas. Depois preparava chá de hortelã e levava até o velho ouriço que morava perto da samaumeira.

“Quem aprende a olhar devagar nunca vive sozinho”, dizia o ouriço, com voz tranquila.

Quatipurú gostava dessas palavras.

Nas tardes silenciosas, ele criava pequenas coisas com as próprias patas. Moldava vasos de barro, secava flores, organizava sementes raras e escrevia bilhetes que escondia entre pedras e troncos daquele lugar. Alguns diziam apenas:

“Descanse um pouco.”

Outros traziam frases simples:

“A vida também mora nos pequenos momentos.”

Os animais encontravam aqueles bilhetes sem saber quem os deixava. Mesmo assim, voltavam para casa mais leves.

Ao entardecer, Quatipurú seguia até o velho comedouro perto do riacho. Os pássaros já conheciam seu passo miúdo e rápido. Cantavam antes mesmo de vê-lo aparecer com sementes frescas. Ele repartia tudo em silêncio. Nunca esperava recompensa. Compartilhar fazia parte do modo como enxergava o mundo.

Quando a noite chegava, aquele vale encantado diminuía o ritmo. Quatipurú acendia a pequena estufa, recolhia as roupas do varal e se deitava ouvindo o som distante das ilhas distantes.

“Hoje foi um bom dia”, pensava.

E realmente tinha sido.

Não porque algo grandioso tivesse acontecido, mas porque ele viveu cada instante com atenção inteira.

Naquela noite, porém, algo diferente aconteceu.

Uma luz suave surgiu perto da raiz que sustentava sua casa. Quatipurú levantou devagar e viu uma pequena fada do bosque flutuando no escuro. Suas asas brilhavam como gotas de chuva iluminadas pela lua.

“Eu vim agradecer”, disse ela.

Quatipurú ficou quieto, escutando.

“Você ensina aos outros que a bondade pode morar nos gestos mais simples. Enquanto muitos procuram grandezas, você cuida do que mantém o Vale da Princesa  vivo.”

A fada então entregou a ele uma pequena semente dourada.

“Plante isto no centro do vale da Princesa. Ela crescerá onde houver verdade, cuidado e partilha.”

Na manhã seguinte, Quatipurú caminhou até a clareira central. Cavou a terra com delicadeza e plantou a semente.

O chão tremeu levemente.

Uma árvore luminosa começou a crescer diante dos animais espantados. Seus galhos espalharam luz morna pelo vale inteiro. As folhas brilhavam como estrelas pequenas.

Desde aquele dia, todos passaram a se reunir ao redor da árvore. Ali aprendiam a criar, descansar, ouvir e compartilhar. O vale ficou mais silencioso, mais unido e mais vivo.

Quatipurú observava tudo sentado perto das raízes.

Ele compreendeu que a verdadeira magia nunca esteve nas luzes da árvore.

Estava nos gestos simples repetidos todos os dias com cuidado, presença e coração.

- Assim narrou Primolius. 


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0989

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