N° 0983 - QUANDO O RÁDIO MANDAVA NA SALA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA



(Direto de Mayandeua)


A sala era pequena. Mas o mundo cabia nela.

Um sofá de tecido grosso. Uma mesa baixa. Uma estante com livros antigos e porta-retratos empoeirados de gente que já foi. E no canto o rádio. Grande de madeira escura. Com botões redondos e um vidro iluminado onde se liam nomes de cidades : Belém. Manaus. Rio de Janeiro. São Paulo. Nomes que ninguém havia visitado, mas que soavam como se ficassem logo ali, do outro lado da rua.

Quando ele ligava, a casa segurava o fôlego.

O rádio não era objeto. Era presença. Ocupava o espaço como gente. Como visita importante que não precisa se anunciar, só chegar. Quando o som saía, ninguém ousava falar alto. A conversa diminuía. O passo ficava lento. O ouvido prestava atenção.

A sala mudava de ritmo.

O tempo mudava de ritmo.

Tudo mudava.

A família se reunia sem marcar hora. Bastava o som sair. O pai sentava na cadeira de palha sempre a mesma cadeira, sempre o mesmo silêncio digno. A mãe ficava perto da porta  sempre perto da porta, como quem cuida do que entra e do que sai. As crianças sentavam no chão sem reclamar.

Cada um tinha um lugar.

Ninguém disputava.

Era costume. Era lei sem escrita.

O rádio falava com voz firme. Não gritava. Não pedia pressa. Ele anunciava o mundo  como se o mundo precisasse de anúncio para existir. Dizia as horas. Dizia o clima. Dizia nomes de cidades distantes com uma seriedade que as fazia parecer reais, tangíveis, quase à mão.

O locutor respeitava as palavras. Ele não corria. Ele sabia  e esse saber era raro  que alguém do outro lado escutava com atenção. Cada frase tinha peso. Cada pausa tinha sentido. Cada silêncio era parte da fala.

Quando começava a música, a casa se transformava.

A mãe parava o que fazia. As mãos paravam. Os pensamentos paravam. O pai fechava os olhos por um instante  só um instante, mas suficiente. As crianças aprendiam a ouvir sem entender tudo. E tudo bem. Porque havia coisas que o corpo entendia antes da cabeça.

A música entrava e ficava.

Não pedia licença.

Não precisava.

O rádio ensinava a esperar.

A música não vinha quando se queria  ela vinha quando podia. Era preciso aguardar. A programação mandava. O desejo aprendia a ficar quieto. E nesse silêncio do desejo quieto, o tempo ensinava a coisa mais rara do mundo: paciência.

Não existia escolha rápida. Não existia pular faixa. O que vinha era o que havia. Isso ensinava a ouvir até o fim. Ensinava a aceitar o que não se escolheu. Ensinava a prestar atenção até no que não agradava de início  e descobrir, no final, que havia beleza ali também.

O rádio também contava histórias. Histórias longas. Histórias faladas. A voz criava imagens e a mente fazia o resto. Cada pessoa via uma cena diferente. Mas todos ouviam a mesma voz. Isso criava algo raro: comunidade sem uniformidade.

A casa ficava em silêncio. Até o vento parecia esperar. O cachorro deitava perto da porta. A rua ficava distante. O rádio virava centro do mundo  e o mundo, por um momento, ficava do tamanho certo.

Havia horários certos. O programa da manhã era alerta, esperto, cheio de recomeço. O da tarde era leve, quase brincalhão. O da noite era mais lento  porque a noite pede calma, e o rádio sabia disso.

Quando o noticiário começava, o pai endireitava o corpo. Ele queria entender o que vinha de fora. Ele confiava naquela voz  e confiar era um ato simples e enorme.

As notícias vinham sem imagem. Isso obrigava a imaginar. O rosto dos políticos. As ruas das cidades grandes. As chuvas. As festas. Os protestos. Tudo nascia dentro da cabeça de quem ouvia. Cada um construía seu próprio mundo a partir da mesma voz.

O rádio ensinava a imaginar...

Um som bastava.

Uma pausa bastava.

Um nome bastava.

A criança aprendia sem saber que aprendia.

Aprendia a escutar o outro sem interromper. Aprendia a esperar sua vez. Aprendia que o silêncio também fala  e às vezes fala mais alto do que qualquer voz.

Quando acabava o programa, ninguém desligava logo. Havia um tempo de respeito. Um tempo curto. Um tempo quieto. Como quem fica um pouco mais à mesa depois da refeição  não por fome, mas por gratidão.

Depois a vida voltava. A mãe ia para a cozinha. O pai ia para o quintal. As crianças saíam para a rua. Mas algo ficava no ar. O som continuava dentro da cabeça  e ficava por horas, às vezes por dias.

O rádio também unia a vizinhança. Uma música tocava. O vizinho ouvia. Reconhecia. No outro dia comentava. Era assim que se criava conversa sem aplicativo, sem curtida, sem notificação. Era olho no olho e a letra na ponta da língua.

As pessoas sabiam o nome do cantor. Sabiam a letra inteira. Tinham aprendido pelo ouvido, repetição por repetição, como quem aprende oração  com o corpo todo.

Quando uma música marcava, ela ficava para sempre. Bastava ouvir um trecho para lembrar da sala. Da cadeira. Do cheiro do café. Da luz entrando pela janela de lado. Da voz do pai. Do silêncio da mãe.

O rádio ensinava memória. Sem pedir nada em troca. Havia dias de notícia triste. O silêncio vinha depois  pesado, respeitoso. Ninguém comentava muito. Havia um entendimento não dito: que certas dores não precisam de palavra.

Havia dias de música alegre. A casa acordava por dentro. Um pé batia no chão. Uma mão batia na mesa. A alegria era simples  e era tudo o que precisava ser.

Quando chovia, o som ficava mais bonito. A chuva batia no telhado. O rádio seguia firme. O mundo parecia menor. Mais seguro. Mais nosso.

Com o tempo, outros aparelhos chegaram. A televisão tomou espaço. O rádio foi ficando de lado  do quarto para a cozinha, da cozinha para a prateleira, da prateleira para o esquecimento. Mas ele nunca perdeu o valor. Ele guardava um tempo que não voltava.

Um tempo de escuta.

Mesmo desligado, ele parecia falar. Bastava olhar para ele. A memória fazia o resto  ligava tudo de novo, por dentro. Hoje a sala é outra. Os móveis mudaram. As telas cresceram. O som vem de muitos lugares ao mesmo tempo  e talvez por isso não venha de lugar nenhum. Nenhuma tela manda como o rádio mandava.

O rádio mandava porque havia entrega. Havia atenção. Havia respeito.

Quando ele falava, o mundo parava um pouco.

Isso não acontece mais.

Ainda assim, quem viveu, sabe. O corpo lembra. O ouvido reconhece. O coração entende sem precisar explicar. O rádio mandava na sala porque ensinava a viver devagar. Ensinava a ouvir o outro. Ensinava a ficar  e ficar, às vezes, é o gesto mais corajoso que existe.

Esse tempo não volta. Mas ele mora na memória.

E a memória ainda sabe ligar o rádio por dentro.

- Assim Primolius tanbém escutava rádio na solidão do tempo....


FIM

Copyright de Britto, 2023

Projeto Literário e Musical Primolius N° 0983






-

Mensagens populares