N° 1022 - A MULHER QUE CRIAVA ASAS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Em Mayandeua, os antigos costumavam observar a lua cheia com respeito. Diziam que, quando sua claridade alcançava as águas, Maya permitia que os caminhos entre os mundos se encontrassem. Era uma ocasião em que os encantados podiam visitar a ilha, atravessar os manguezais e caminhar entre os moradores sem revelar sua verdadeira natureza.
Foi nesse território de mistérios que nasceu Iaraí, uma menina que desde cedo parecia guardar uma história anterior ao próprio nascimento.
Quando dormia, sonhava que atravessava os céus, sobrevoava as restingas e acompanhava o curso dos rios até encontrar o mar aberto. Algumas manhãs, ao despertar, pequenas penas claras apareciam próximas à sua rede. Sua mãe procurava explicações, mas os mais velhos apenas trocavam olhares. Havia alguma coisa naquela criança que pertencia aos antigos mistérios de Maya.
O tempo passou e Iaraí conheceu Anajé, um jovem pescador que demonstrava profundo respeito pelas águas. Antes de sair com sua canoa, conversava com o mar. Agradecia aos peixes, respeitava os períodos de reprodução e conhecia os caminhos que os ventos desenhavam sobre a ilha.
Entre os dois nasceu um sentimento que cresceu com a convivência. Gostavam de percorrer as praias, visitar os lugares antigos e ouvir as narrativas dos moradores. Iaraí encontrara alguém que compreendia seus silêncios.
Certa noite, Anajé convidou-a para conhecer um banco de areia que surgia somente durante algumas marés de lua cheia. Quando chegaram, o jovem revelou sua verdadeira origem.
Contou que descendia de uma antiga linhagem de guarás encantados. Durante o dia assumia a aparência humana, mas, quando os portais de Maya se abriam, recuperava suas asas vermelhas e sua missão de proteger os caminhos do oceano.
Depois, olhou para Iaraí e revelou que seus sonhos também tinham uma explicação. Ela descendia de uma antiga família de guardiãs celestes. Suas asas permaneciam adormecidas, aguardando o momento de serem despertadas.
Iaraí não demonstrou espanto. Sentia que aquela revelação completava algo que sempre estivera dentro dela.
Tomou as mãos de Anajé e aceitou compartilhar seu destino.
O luar atravessou seus corpos. Anajé transformou-se num majestoso guará de plumagem vermelha. Iaraí recebeu duas grandes asas prateadas, cuja claridade acompanhava o movimento das marés.
Naquela noite, as antigas Matintas surgiram entre as árvores. Eram guardiãs de conhecimentos esquecidos e reconheceram a jovem como parte de uma linhagem ancestral. Maya havia testemunhado o reencontro de dois seres que pertenciam à mesma história.
A partir daquele tempo, Iaraí e Anajé passaram a percorrer os céus de Mayandeua. Protegiam as pequenas embarcações, orientavam os pescadores durante as noites de neblina e acompanhavam os animais que procuravam abrigo nas praias e nos manguezais.
As gerações cresceram ouvindo falar do casal. Alguns moradores afirmavam ter visto suas silhuetas sobre o horizonte. Outros diziam escutar o bater de asas próximo aos bacurizeiros antigos.
Primolius, guardião das narrativas da ilha, registrou que os dois nunca abandonaram Mayandeua. Apenas escolheram outro modo de permanecer entre seu povo.
E os antigos continuam ensinando às crianças que, nas noites de lua cheia, é preciso olhar para o alto. Talvez duas criaturas encantadas estejam atravessando o céu, cuidando dos caminhos, dos animais e dos sonhos daqueles que ainda respeitam a natureza.
Porque, em Maya, existem destinos que ultrapassam a vida conhecida. E há amores que encontram nas próprias raízes a razão de continuar existindo.
- Assim narrou Primolius...
FIM
Copyright de Britto, 2023
Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1022

