N° 1016 - O ROSTO DE MAYA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Na primeira manhã do mundo, quando Mayandeua ainda existia apenas no pensamento da Grande Maya, o Sol e a Lua nasceram dentro da mesma concha. A maré trouxe essa concha até a praia e a deixou sobre a areia úmida, diante dos olhos atentos dos Caruanas.
Eles não se aproximaram.
Sabiam que aquilo não era um objeto comum.
Quando a concha se abriu, surgiu um rosto dividido pela luz e pela noite. De um lado, o Sol ardia com seus raios. Do outro, a Lua guardava o silêncio das águas profundas. No centro, um único olhar parecia conhecer os caminhos da ilha antes mesmo de eles existirem.
Os Caruanas compreenderam o sinal.
Aquele rosto protegeria o equilíbrio entre os homens, os animais e os encantados.
Desde então, sua presença não ficou presa ao céu. Passou a viver nas raízes dos manguezais, onde a condessa se abriga durante a maré alta. Entrou nas copas dos bacurizeiros, nos ninhos dos pássaros, na areia das dunas e nas águas que cercam Mayandeua.
Durante o dia, o lado solar percorre os caminhos da ilha. Acompanha os canoeiros, orienta os pescadores e ilumina as crianças que correm pelas praias. Sua claridade desperta as garças, aquece as folhas e revela trilhas antigas escondidas pela maré.
Mas o Sol também carrega a força do excesso.
Quando sua luz se torna intensa demais, os rios baixam, a areia queima e os animais procuram abrigo. Por isso, ao fim da tarde, ele recolhe seus raios e entrega a ilha à Lua.
O lado lunar desperta devagar.
Ela passa pela Pedra Chorona, visita o Lago da Princesa e atravessa o Portal dos Caruanas. Escuta o que as árvores antigas dizem. Recolhe os sonhos deixados nas casas. Guarda os pedidos dos canoeiros e os medos das crianças.
A Lua, porém, também conhece o perigo do silêncio.
Quando a noite se torna longa demais, o medo cresce entre as sombras e os homens deixam de enxergar o caminho. Por isso, antes do amanhecer, ela devolve à ilha a primeira claridade.
Dizem os moradores mais antigos que ninguém contempla o Rosto de Maya por acaso.
Quem o encontra recebe um chamado.
Alguns passam a entender o movimento das marés. Outros reconhecem a voz dos pássaros. Há também aqueles que descobrem que cada árvore possui um nome e que toda pedra guarda uma lembrança.
Certa noite, um pescador chamado Antero saiu sozinho em sua canoa. A maré estava forte e o céu desapareceu atrás das nuvens. Sem estrelas, ele perdeu a direção.
Antero remou por horas.
Quando já não sabia se avançava para o mar ou para a terra, viu sobre a água o reflexo do Rosto de Maya. A metade solar apontava para o nascente. A metade lunar indicava a passagem segura entre os bancos de areia.
Ele seguiu o sinal e voltou para casa antes do amanhecer.
No dia seguinte, contou o ocorrido aos moradores. Alguns acreditaram. Outros riram. Antero não discutiu. Apenas caminhou até o manguezal e plantou um bacurizeiro próximo à praia.
Anos depois, aquela árvore cresceu.
Sua copa passou a servir de abrigo para os pássaros. Suas raízes seguraram a areia durante as grandes marés. E sua sombra se tornou ponto de descanso para canoeiros e viajantes.
Foi assim que Antero compreendeu a verdadeira mensagem do Rosto de Maya.
A luz não existe apenas para mostrar o caminho. Ela também exige cuidado com o lugar onde se vive.
Na Ilha de Maya, o Sol e a Lua não disputam o céu. Eles cumprem um pacto antigo. Um ilumina os caminhos visíveis. O outro protege os caminhos que somente a memória e o coração conseguem reconhecer.
E, nas noites em que a maré sobe devagar, os moradores ainda observam as águas de Mayandeua. Alguns juram ver aquele grande rosto refletido sobre o mar.
Ele não sorri para todos.
Sorri apenas para aqueles que aprenderam que proteger a ilha é manter acesa a própria magia de Maya.
- Assim narrou Primolius
FIM
Copyright de Britto, 2023
Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1016


