N° 0969 - A TRAVESSIA DOS SETE IRMÃOS - SÉRIE:CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Nas terras ancestrais da África antiga, quando a lua ainda não tinha nome e o tempo fluía , sete irmãos corriam pela savana sob o céu tingido de sangue. Atrás deles, o som de tambores de guerra ecoava como trovões furiosos, e as lanças das tribos rivais cortavam o ar com sede de vingança. O mais velho carregava nos braços o mais novo aquele que seria conhecido como o Menino dos Lagos. Entre eles, cinco irmãos de idades variadas corriam com pés ágeis sobre a terra vermelha.
— Para os Lagos Sagrados! Gritou o mais velho, apontando para o horizonte onde espelhos d'água refletiam uma lua , púrpura e dourada.
Eles eram filhos de uma linhagem esquecida, guardiões de um segredo antigo: o conhecimento dos Portais de Maya, passagens interdimensionais que se abriam apenas para aqueles cujos corações batiam no ritmo exato das marés cósmicas.
Quando alcançaram as margens do primeiro lago, algo extraordinário aconteceu. A água começou a brilhar com uma luminescência azul-prateada, e do centro emergiu uma figura etérea, Maya, a Guardiã daquele lugar..
— Vocês que carregam a inocência e a coragem.
Sua voz era como água corrente sobre pedras antigas
— Têm direito à passagem. Mas saibam: cruzar o portal significa deixar para trás tudo que conhecem. Vocês nascerão novamente em uma terra onde o mar beija lagos de água doce, onde a magia ainda pulsa através dos elementos naturais daquela ilha..
Os sete irmãos se entreolharam. Atrás deles, o som da guerra se aproximava. À frente, o desconhecido brilhava com promessas.
— Vamos juntos! Disse um dos meninos, embora ainda fossem pequenos para compreenderem totalmente suas próprias palavras. Mas seus olhos já guardavam aquele brilho especial, a sabedoria de quem nascem destinados a serem guardiões.
Maya sorriu, e com um gesto de suas mãos translúcidas, o lago inteiro começou a girar. A água formou um vértice vertical, uma espiral de líquido cristalino que revelava, em seu interior, fragmentos de outro mundo: dunas douradas, um oceano infinito, pássaros brancos voando sobre ondas espumantes.
O mais velho deu o primeiro passo, segurando firme a mão do Menino dos Lagos. Os outros cinco seguiram, formando uma corrente humana. Quando tocaram a superfície do portal, suas formas se dissolveram em partículas de luz.
A travessia foi uma jornada através de mil memórias e mil futuros. Eles viram:
- O nascimento das primeiras estrelas
- Oceanos que cantavam canções de ninar
- Criaturas de peles nadando em águas impossíveis
- Lagos que conversavam com o mar em uma língua feita de espuma e sal
Cada irmão recebeu um dom durante a passagem:
O Primeiro Irmão recebeu a capacidade de ouvir as parlendas do vento e interpretar as mensagens das ondas.
A Segunda Irmã ganhou mãos que podiam tecer redes de luz, capazes de capturar não peixes, mas sonhos e esperanças.
O Terceiro Irmão seus olhos passaram a guardar o brilho do Peixe-Abacaxi, enxergando verdades ocultas nas profundezas.
A Quarta Irmã recebeu voz que podia acalmar tempestades e convocar marés de cura.
O Quinto Irmão ganhou pés que não mais tocavam o chão, flutuando eternamente sobre areia úmida.
A Sexta Irmã seus cabelos se transformaram em algas vivas, antenas que captavam as vibrações do cosmos marinho.
E o Menino dos Lagos - o mais novo, recebeu o maior dom de todos: o coração que batia no ritmo primordial, os segredos de Maya, capaz de unir água doce e salgada, terra e mar, passado e futuro.
Quando emergiram do portal, não eram mais exatamente humanos, mas também não eram espíritos. Haviam se tornado algo entre uma pele que brilhava sob a luz da lua e olhos que refletiam profundezas oceânicas.
Seus pés tocaram, pela primeira vez, a areia de Mayandeua. À frente, o oceano se estendia infinito. Atrás, lagos de água doce espelhavam um céu que já não era africano, mas brasileiro, estrelado e vasto.
O Menino dos Lagos, ainda carregado nos braços do irmão mais velho, olhou ao redor com olhos arregalados. E então aconteceu algo mágico: ele riu. Uma risada pura, cristalina, que ecoou pelas dunas como música. Naquele momento, o oceano respondeu. Ondas subiram mais alto, espuma dançou no ar, e das profundezas emergiu o primeiro Peixe-Abacaxi, criatura mítica que reconheceu nos recém-chegados os novos guardiões da ilha.
— Este é nosso lar agora, disse o irmão mais velho, colocando o Menino dos Lagos na areia úmida.
E o menino, com passos ainda incertos, caminhou até onde as ondas beijavam a praia. Ele estendeu suas pequenas mãos, e a água doce dos lagos interiores fluiu através da areia, encontrando o sal do oceano. Desse beijo nasceu a primeira criança de Mayandeua um ser de luz e espuma que seria o ancestral da Nova Geração do Mar.
E o Menino dos Lagos, mesmo sendo o mais novo, tornou-se o coração pulsante de todos. Ele aprendeu o abecedário das ondas com o pássaro Maçarico, que pousava em seu ombro ao amanhecer. Descobriu que podia conversar com as ostras e peixes, que lhe contavam segredos guardados. Nos lagos interiores, ele passava horas observando como a água doce e a salgada dançavam sem nunca se misturar completamente, uma lição sobre respeitar diferenças enquanto se mantém unido.
Hoje, nas dunas de Mayandeua, o Menino dos Lagos observa orgulhoso. Ele não é mais tão menino assim, mas carrega eternamente aquele nome, porque os lagos foram sua primeira casa após a travessia, e porque seu coração ainda pulsa com a pureza das águas doces se encontrando com o sal do infinito.
Sob a Lua de Maya, ele às vezes olha para o céu e vê, em certas constelações, os contornos da África que deixou para trás. As guerras cessaram há muito tempo naquelas terras, mas os Portais de Maya permanecem abertos para aqueles que precisam fugir, para aqueles que buscam renascimento.
Ele sabe que a Nova Geração do Mar é a prova viva de que a magia se renova. Cada criança que nasce da espuma carrega um fragmento da jornada dos sete irmãos, um eco daquela corrida sob o céu tingido de sangue, daquele salto de fé através do portal de água giratória.
E assim, o ciclo recomeça, mais brilhante do que nunca.
Nas noites de Lua de Maya, dizem os pescadores mais antigos, ainda é possível ver sete figuras luminosas dançando sobre as ondas de Mayandeua e correndo na praia com as suas risadas. São os irmãos originais, eternos guardiões da ilha, celebrando a cada ciclo lunar o milagre de terem sobrevivido, de terem atravessado, de terem encontrado o lar onde mar e lagos finalmente falam a mesma língua de amor e sal.
- Assim narrou Primolius.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0969


