N° 1021 - A DANÇA DAS NUVENS - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
Naquela noite, o céu de Maya estava diferente. As nuvens se encontravam sobre as águas, conduzidas pelos ventos que atravessavam as restingas e os campos de areia. Moviam-se devagar, como se conhecessem uma antiga canção que os homens haviam esquecido. As garças acompanhavam aquele movimento, enquanto a Lua clareava os caminhos dos pássaros e dos encantados.
Era uma festa da natureza. Ninguém precisava anunciar sua chegada. O vento fazia a música, as árvores respondiam com suas folhas e o mar marcava o compasso nas margens da ilha.
Mas, nas casas, outra realidade acontecia.
Homens, mulheres e crianças estavam reunidos nos mesmos espaços, porém cada um permanecia ocupado com seu pequeno universo iluminado. Os olhos procuravam notícias, imagens e conversas distantes. Os dedos se movimentavam sem descanso, enquanto as pessoas ao redor quase não trocavam palavras.
Havia comunicação, mas faltava convivência.
Um pai já não percebia o chamado do filho. Uma mãe dividia sua atenção entre a mesa e o aparelho. Os amigos estavam juntos, mas cada qual parecia morar num lugar diferente. As horas passavam e, sem perceber, as pessoas deixavam de observar aquilo que acontecia diante delas.
Lá fora, os pássaros continuavam cumprindo sua antiga tarefa.
O japim anunciava sua presença entre os galhos. O bem-te-vi chamava a manhã que ainda estava por chegar. As garças atravessavam os braços do manguezal, procurando alimento nas águas rasas. Ninguém lhes ensinara a cantar. A vida já havia colocado aquela música dentro deles.
Primolius, que conhecia os segredos das árvores e os costumes dos encantados, observava a movimentação das pessoas. Pensava que a humanidade havia inventado muitas maneiras de conversar, mas parecia ter esquecido a importância de olhar nos olhos de quem estava por perto.
Na tradição de Maya, os antigos ensinavam que escutar exige presença. É preciso oferecer tempo, reconhecer a voz do outro e compreender que uma conversa também acontece nos silêncios.
Certa manhã, uma criança deixou o aparelho sobre a mesa e saiu para o quintal. Escutou um pássaro, acompanhou o movimento das nuvens e chamou a avó para mostrar o que havia descoberto.
A velha sorriu. Havia muito tempo que alguém não a convidava simplesmente para olhar o céu.
Naquele instante, os encantados compreenderam que ainda existia esperança.
Porque a tecnologia pode aproximar distâncias, transmitir conhecimentos e abrir caminhos. Mas a vida compartilhada precisa de presença, atenção e afeto.
E Maya continua ensinando aos seus habitantes que nenhuma tela substitui o encontro entre duas pessoas, assim como nenhuma máquina consegue reproduzir inteiramente a música de um pássaro ao amanhecer.
- Assim narrou Primolius...
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1021

