N° 1020 - A REDE QUE PRENDEU O MAR - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
Em Maya, o mar tem suas próprias maneiras de contar histórias. Recebe o que vem da terra, guarda o que os homens esquecem e devolve à vida aquilo que ainda consegue sobreviver. Mas há coisas que chegam às águas e deixam marcas que nem as marés conseguem apagar.
Numa manhã de vazante, Auren, velho pescador das águas de Mayandeua, caminhava entre os manguezais quando avistou uma antiga rede de nylon presa às raízes. Estava ali havia muito tempo. O sol já havia queimado seus fios, a lama cobria parte de suas cordas e pequenos habitantes do mangue tinham feito daquele abandono um lugar de morada.
Caranguejos atravessavam suas malhas. Camarões procuravam alimento. Ostras se agarravam aos fios e um pequeno polvo escondia-se entre os nós. Auren parou. Conhecia os costumes daquele mundo. Sabia que a natureza encontra caminhos até nos lugares onde o homem deixa seus rastros.
Mas, ao olhar mais atentamente, percebeu que aquela mesma rede também guardava sofrimento. Um guará debatia-se para soltar uma das pernas. Um peixe já sem vida permanecia preso. Mais adiante, uma tartaruga deixara marcas profundas na areia, depois de escapar de uma armadilha que quase lhe custara a vida.
Auren baixou a cabeça.
Aquela rede tinha se transformado numa morada para alguns e numa sentença para outros.
Dias depois, chegaram pesquisadores à ilha. Caminharam pelas margens, observaram os organismos e registraram a quantidade de resíduos encontrados. Falavam de impactos ambientais, biodiversidade e desequilíbrio dos ecossistemas.
Auren escutava. Não conhecia todas aquelas palavras, mas conhecia o mangue desde menino. Sabia quando a água estava doente, quando os peixes desapareciam e quando o silêncio dos pássaros anunciava alguma mudança.
Para ele, o problema tinha uma explicação simples. Alguém havia usado aquela rede, abandonado seus fios e seguido a vida. O mar, porém, continuara convivendo com o descuido.
Na tarde seguinte, algumas crianças da comunidade organizaram uma caminhada pela praia. Recolheram cordas, plásticos, pedaços de redes e outros materiais deixados pelas marés. Primolius acompanhava tudo de perto, como se desejasse guardar aquela atitude nas páginas de suas histórias.
Cada criança carregava um pouco da responsabilidade que também pertencia aos adultos.
Quando o sol começou a desaparecer, Auren preparou sua canoa. Antes de partir, olhou para o manguezal e agradeceu aos pequenos companheiros daquela paisagem. Sabia que ainda havia muito a fazer.
Naquela noite, Maya contou aos encantados que a maior riqueza de Mayandeua não estava escondida nos portais, nas pedras ou nas profundezas do mar. Estava nas mãos de quem compreendia que cuidar da natureza é respeitar a própria existência.
E Primolius, guardião das histórias da ilha, deixou registrado:
O mar pode receber nossos descuidos, mas não deve carregar sozinho a responsabilidade por eles. A natureza sabe recomeçar. Cabe ao homem aprender a não destruir aquilo que sustenta sua própria vida.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1020

