* Nº 0959 - TACACÁ DAS 17H:00 – SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA


Direto de Mayandeua....
Primolius relembrando... 

O ar de Belém ganha uma vibração peculiar quando os sinos da igreja, como um último suspiro antes do silêncio, anunciam as cinco da tarde. É o momento em que o dia começa a declinar, mas a cidade desperta em outro compasso. Não importa o bairro: nas ruas apressadas do Comércio, nas avenidas sombreadas de Nazaré ou nas vielas que se perdem em Jurunas, o chamado é universal. É a voz da tradição que ecoa, antiga e viva, convocando os sentidos para um ritual que é, ao mesmo tempo, alimento e memória. De repente, Belém se transforma num palco aromático onde o cheiro do tucupi se mistura ao perfume da chuva e ao som dos passos apressados que buscam a primeira cuia fumegante.

Nas esquinas, as barracas florescem como altares. Fogareiros sibilam, panelas borbulham, cuias coloridas se alinham como joias de cerâmica sobre os tabuleiros. O cenário é sempre o mesmo, mas nunca igual. Cada tacacazeira carrega seu toque secreto: um punhado de jambu mais tenro, o tucupi curtido por mais um dia, a goma com o ponto perfeito. É a hora do tacacá, o caldo dourado que destila a alma da Amazônia. O tucupi, extraído da mandioca brava, guarda a força da floresta; a goma é a suavidade que a natureza oferece em contraponto; o camarão seco traz o sabor do mar; e o jambu, com sua dormência elétrica, desperta a língua e o coração.

A tacacazeira é mais que uma vendedora; é sacerdotisa desse rito cotidiano. De turbante firme, olhar sereno e mãos hábeis, ela conduz o preparo com gestos de quem compreende o poder do alimento. Talvez se chame Raimunda, Nazaré ou Benedita, mas todas respondem por um mesmo nome: Tia, tem Tacacá! Nelas vive a sabedoria das antigas, transmitida sem receitas escritas, apenas pelo olhar e pelo tato. O fogo precisa estar no ponto certo, o tucupi ferve no tempo justo, e a cuia, antes de ser servida, é lavada com o mesmo cuidado que se tem ao limpar um relicário. Cada detalhe é uma reverência à tradição.

O aroma que se espalha é inconfundível. Mistura-se ao vento úmido, atravessa ruas e invade janelas, chamando quem passa. É o cheiro do encontro. O senhor de terno amarrotado, a estudante com pressa, o feirante cansado, o turista curioso, todos se encontram ao redor das cuias. As conversas começam tímidas, depois ganham corpo, acompanhadas pelo som ritmado da chuva ou pelo batuque distante de um brega marcante. O tacacá não é só comida; é pausa e convivência. É o pretexto perfeito para compartilhar histórias, risadas e silêncios.

Em dias de chuva, o ritual adquire um encanto quase místico. As luzes das barracas tremulam refletidas nas poças d’água, e o vapor que sobe das panelas parece dialogar com o céu nublado. As pessoas se aproximam, buscando o abrigo do toldo e o calor do caldo. O jambu provoca o formigamento nos lábios, a pimenta-de-cheiro perfuma o ar, e o tucupi aquece até os ossos. É um instante de comunhão, em que o tempo desacelera e a cidade se permite respirar com calma.

Cada gole de tacacá é uma celebração da identidade paraense. Denso, ácido, vibrante, ele carrega o tempero das águas, das matas e da memória coletiva. Não é apenas uma iguaria; é uma narrativa líquida que conta a história de um povo resistente, criativo e afetuoso. O formato circular da cuia simboliza o ciclo da vida, o retorno constante das tardes que nunca são iguais, mas sempre reconhecíveis e suculentos.

Dizem que o tacacá engorda. Talvez. Mas, se o faz, é de alegria. Engorda a alma, expande o peito, desperta lembranças. Porque, em Belém, npo Pará, o tacacá não é só uma refeição ou merenda: é o abraço das cinco da tarde, o elo invisível entre o passado e o presente, o gosto de casa servido em cuia.

E assim, quando o dia se despede e as luzes tomam conta da cidade, Belém pulsa em harmonia com o som dos sinos, o crepitar das panelas e o murmúrio das conversas. É a sinfonia das cinco, tocada em notas de tucupi, goma e jambu. Uma música que só quem vive aqui é capaz de ouvir — e saborear.


- Assim narrou Primolius no país do tacacá!


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0959

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