N° 1015 - NOITES DE LUA EM MAYA - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA



Quando o inverno alcançava Maya, a ilha mudava de ritmo. A chuva afinava o cheiro das folhas, as marés respiravam mais devagar e a lua cheia transformava os caminhos de areia em longas faixas de prata. Era nesse tempo que os pássaros iniciavam um costume antigo, conhecido apenas pelos encantados.

Em vez de permanecerem imóveis sobre os galhos, eles percorriam toda a ilha. Cruzavam manguezais, dunas e igarapés levando pequenos presentes. Um maracanã carregava uma semente rara. Um guará trazia uma escama luminosa deixada por um peixe na maré vazante. Um anu recolhia gotas de orvalho sobre folhas de muruci. Até um velho corvo escondia no bico uma pequena pedra polida pelas ondas.

Cada presente era deixado em lugares inesperados. Sobre uma canoa esquecida na praia. Na janela de uma casa voltada para o mar. Entre raízes de uma samaumeira. Ou na entrada de uma trilha iluminada pelos vagalumes. Ninguém sabia quem receberia aquelas lembranças. Os pássaros apenas obedeciam ao chamado da lua.

Conta a tradição que todo amor verdadeiro deixa um rastro invisível. Os pássaros enxergam esse caminho quando ninguém mais consegue.

Naquela estação, uma pequena fêmea de anu retornou à ilha depois de muitos invernos viajando entre rios distantes. Ela acreditava que o companheiro já não a esperava. Encontrou apenas uma pena escura presa ao galho de um velho mangue.

Ao tocar a pena com o bico, ouviu um assobio vindo da direção das dunas. Não era um canto qualquer. Era a mesma melodia que os dois haviam aprendido ainda filhotes, quando voavam pela primeira vez sobre as praias de Maya.

Ela seguiu aquele som.

Não encontrou flores nem promessas. Encontrou o companheiro construindo um novo ninho, galho por galho, voltado para a lua cheia. Durante anos ele havia reconstruído o abrigo sempre que as tempestades o derrubavam, acreditando que um dia ela voltaria.

Os dois terminaram o ninho juntos antes do amanhecer.

Desde então, nas noites de inverno, muitos moradores dizem ver pássaros atravessando o céu com pequenos presentes no bico. Não procuram apenas quem ama. Procuram quem ainda acredita que um reencontro pode ser construído com paciência, memória e esperança.

Em Maya, a lua não reúne apenas os apaixonados. Ela ilumina aqueles que nunca desistiram de voltar para o mesmo coração.


-  Assim narrou Primolius

FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1015




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