N° 1014 - A CHUVA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

 



A primeira chuva não caiu.

Ela desceu devagar, como quem conhecia o caminho de volta.

Durante meses, o verão havia endurecido a terra. A última coivara deixara um cheiro que parecia morar nas pedras, nas raízes e até nas mãos dos homens que, em silêncio, observavam a paisagem sem reconhecer nela o lugar onde nasceram.

A ilha estava diferente.

Os caminhos continuavam os mesmos. O vento ainda atravessava os campos. O mar seguia obedecendo às marés. Mas havia uma ausência que ninguém conseguia explicar. Era como se a própria terra tivesse deixado de contar histórias.

Quando a água finalmente chegou, não encontrou resistência.

Entrou pelas rachaduras abertas pelo calor. Caminhou por veias escondidas muito antes dos primeiros canoeiros pisarem naquela areia. Parecia procurar alguma coisa esquecida.

Foi então que a terra se moveu.

Não com violência.

Moveu-se como quem desperta depois de um longo sonho.

Do centro da clareira nasceu um pequeno fio de água. Ninguém lhe deu importância. Pensaram que desapareceria quando a chuva passasse.

Mas, na manhã seguinte, ele continuava ali.

No outro dia havia aumentado.

Na semana seguinte já desenhava um caminho próprio entre folhas queimadas, pedras antigas e raízes que pareciam reencontrar o sentido de permanecer vivas.

As crianças começaram a brincar em suas margens.

Os pássaros regressaram sem serem chamados.

Os sapos anunciaram a noite antes mesmo do pôr do sol.

Era como se todos soubessem de um segredo que os homens haviam esquecido.

Certa tarde, um velho pescador aproximou-se daquele olho d'água levando apenas sua bengala de miriti.

Sentou-se ao lado da nascente e permaneceu em silêncio.

Depois sorriu.

Alguém perguntou por que sorria diante de uma simples fonte de água.

O velho respondeu:

"Vocês pensam que nasceu um córrego. Não nasceu."

Todos se aproximaram.

Ele mergulhou a mão na água cristalina.

"Quem nasceu foi a lembrança deste lugar."

Ninguém compreendeu naquele instante.

Somente muitos anos depois, quando os mapas passaram a registrar aquele pequeno curso d'água, descobriram que ali existira um igarapé desaparecido havia mais de cem anos. Os antigos o chamavam de Caminho das Garças, porque era por suas margens que elas anunciavam a chegada do inverno amazônico.

A chuva não havia criado um riacho.

Apenas retirara o esquecimento que cobria a memória da ilha.

Desde então, toda vez que o inverno chega sobre Maya, os mais velhos caminham até aquela nascente sem dizer palavra alguma.

Ficam apenas ouvindo a água.

Dizem que, quando o vento passa entre as árvores e toca a superfície daquele olho d'água, é possível escutar vozes muito antigas. Não são vozes de gente. São vozes da própria ilha, contando as histórias que ficaram escondidas debaixo das cinzas.

Os mais jovens perguntam por que ninguém escreve essas histórias.

Os velhos apenas sorriem.

Porque aprenderam que existem histórias que não pertencem ao papel.

São escritas pela terra.

Lidas pela chuva.

Guardadas pela água.

E basta um inverno chegar para que Maya volte, mais uma vez, a lembrar quem sempre foi.

- Que Assim Seja!

-  Assim narrou Primolius


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1014



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