N° 1013 - O GRITO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Ela já não suportava o silêncio fabricado das cidades. As janelas de vidro lhe mostravam um céu sem cheiro, um vento sem memória e um horizonte interrompido por concreto. O Sol ainda nascia todos os dias, mas parecia preso dentro de fotografias repetidas, como se alguém tivesse decidido que bastava olhar para uma tela para conhecer o mundo.
Carregava dentro de si um desejo antigo. Queria partir para qualquer lugar onde pudesse gritar o próprio nome e ouvir a natureza responder. Não buscava plateias. Procurava apenas o eco dos mangueiros, o rumor das águas e a companhia dos pássaros que nunca aprenderam a mentir.
Sonhava encontrar um lugar onde seus olhos reaprendessem a ver. Queria descobrir um Sol que queimasse a pele com delicadeza, que desenhasse sombras diferentes a cada amanhecer. Desejava contemplar a água sem filtros, sem molduras, sem propagandas. Queria enxergar o brilho de um rio que não coubesse em fotografias. Queria sentir o mar respirando diante dela, livre, como sempre foi.
Foi então que ouviu falar de Maya. Diziam que naquela ilha o vento conhecia o nome de cada árvore. Que as marés levavam recados antigos. Que o silêncio não era vazio, mas uma conversa entre a terra, o céu e o oceano.
Quando chegou, não encontrou monumentos. Encontrou caminhos de areia, cheiro de maresia e um Sol que parecia nascer apenas para quem ainda acreditava na beleza do primeiro olhar.
Ela caminhou até a praia. Respirou profundamente. Pela primeira vez em muitos anos, não havia motores, notificações nem vozes apressadas. Apenas o movimento das ondas.
Então gritou.
Não foi um grito de dor. Nem de revolta.
Foi o grito de quem finalmente devolvia ao mundo tudo o que havia guardado por tanto tempo.
As dunas devolveram sua voz. O mar respondeu com espuma. As garças levantaram voo. As árvores balançaram lentamente, como se reconhecessem aquela visitante.
Naquele instante, compreendeu que o Sol nunca havia mudado. A água também não.
Quem precisava reaprender a olhar era ela.
Desde esse dia, nunca mais aceitou imagens enlatadas como substitutas da experiência. Descobriu que a natureza não cabe em fotografias, porque sua verdadeira beleza acontece entre o olhar, o silêncio e a presença.
E Maya continuou ali, esperando outros viajantes que ainda tivessem coragem de trocar a tela pelo horizonte.
FIM
Assim narrou Primolius
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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1013


