N° 1012 - TÁBUAS QUEBRADAS - SÉRIE: HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DE MAYANDEUA

 



 de quem ainda se aventurava por ali. Não era um ranger qualquer. Era uma linguagem antiga, feita de sal, maresia e lembranças. Cada madeira guardava o peso de despedidas, reencontros e promessas lançadas ao vento, como se o próprio cais tivesse aprendido a sentir a dor dos homens.

Os mais velhos da vila diziam que aquelas tábuas conheciam nomes que já não eram pronunciados. Sabiam quais barcos partiram para nunca mais voltar. Sabiam quem regressou com os cabelos embranquecidos pelo mar e quem permaneceu apenas na memória das famílias. Quando a maré enchia e a água tocava as estacas do trapiche, parecia que vozes antigas voltavam a conversar entre si.

Foi ali que Nayra começou sua espera.

Naquela tarde, o céu estava pintado pelos últimos tons do sol. As garças desenhavam aspirais sobre o mar e o vento soprava como quem desejava guardar cada palavra pronunciada naquele instante.

Ele segurou suas mãos com delicadeza.

Olhou demoradamente para seus olhos.

Sorriu como quem escondia o medo da distância.

Depois disse apenas:

"Eu volto."

Nenhuma outra promessa foi necessária.

O barco afastou-se lentamente. As velas desapareceram no horizonte até se confundirem com o azul do céu e das águas. Nayra permaneceu imóvel. Nem percebeu quando a noite chegou.

Desde então, todas as tardes encontravam a mesma mulher sentada no trapiche. Alguns moradores acreditavam que ela havia perdido a razão. Outros diziam que era apenas mais uma apaixonada incapaz de aceitar a ausência.

Ela nunca discutia.

Apenas sorria.

Sabia que existem promessas que não pertencem ao relógio.

As estações mudaram. Ventos fortes derrubaram árvores. Novos trapiches foram construídos enquanto aquele envelhecia lentamente. Crianças cresceram ouvindo a história da mulher que conversava com o horizonte. Tornaram-se adultos. Depois avós. E ainda encontravam Nayra olhando para o mesmo lugar onde céu e mar pareciam se tocar.

Certa noite de lua cheia, um velho canoeiro aproximou-se dela.

Disse ter navegado por muitos lugares.

Contou que existiam caminhos invisíveis entre as ilhas de Maya. Rotas conhecidas apenas pelos Caruanas, onde o tempo caminhava de forma diferente. Havia homens que desapareciam durante um único dia e retornavam décadas depois, sem perceber que o mundo inteiro havia envelhecido.

Nayra ouviu em silêncio.

Não perguntou nada.

Porque, no fundo, sempre acreditara que o mar escondia mais segredos do que os homens conseguiam compreender.

Em algumas madrugadas, quando a maré estava de lance e a neblina cobria a enseada, pescadores afirmavam ver uma embarcação antiga atravessando as águas sem produzir qualquer ruído. Diziam que sua vela brilhava como prata sob a lua e que nenhuma onda parecia tocá-la.

Alguns chamavam aquilo de ilusão.

Outros preferiam o silêncio.

Nayra apenas continuava esperando.

Os anos deixaram marcas em seu rosto, mas nunca diminuíram a firmeza de seu olhar. O trapiche perdeu tábuas. Ganhou rachaduras. O sal abriu fendas profundas na madeira. Ainda assim, permanecia de pé, como se também aguardasse alguém.

Então, numa manhã em que o sol nasceu envolto por uma névoa dourada, uma embarcação surgiu lentamente no horizonte.

Não era igual às outras.

Deslizava sobre as águas como se fosse conduzida pelo próprio vento.

Quando se aproximou do cais, um homem desceu calmamente. Seus cabelos ainda eram escuros. Seu rosto conservava a juventude daquele último abraço.

Ele caminhou até Nayra.

Sorriu.

Era o mesmo sorriso.

Para ele, haviam passado apenas alguns dias.

Para ela, quase uma vida inteira.

Ninguém conseguiu explicar o que aconteceu naquela manhã.

Os moradores apenas observaram os dois caminhando juntos pela praia até desaparecerem entre as dunas, onde a vegetação encontra os antigos caminhos encantados de Maya.

Desde aquele dia, as tábuas do velho trapiche nunca mais rangeram da mesma maneira.

Os antigos dizem que elas deixaram de lamentar uma despedida.

Passaram, enfim, a contar a história de uma promessa que encontrou o caminho de volta.


FIM

Assim narrou Primolius

Copyright de Britto, 2023

Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1012


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