N° 1011 - A MENINA E AS PEDRAS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 



Havia um costume que ninguém compreendia na Ilha de Maya. Todas as manhãs de maré baixa, uma jovem deixava as sandálias escondidas sob um velho tronco de siriúba e seguia descalça sobre o campo de pedras que surgia entre o mar e a praia. Os pescadores diziam que aquilo machucava os pés. As crianças imaginavam que ela procurava conchas encantadas. Os mais velhos apenas sorriam em silêncio, como quem conhecia histórias que não podiam ser contadas.

Ela nunca respondia às perguntas.

Dizia apenas que precisava sentir a respiração das pedras.

Acreditava que cada uma delas guardava uma lembrança trazida pelas águas desde o nascimento do mundo. Quando seus pés tocavam aquelas superfícies frias, seu coração mudava de ritmo. Era como se uma música muito antiga voltasse a tocar dentro dela.

Desde pequena carregava uma sensação estranha. Não era tristeza. Também não era medo. Era uma ausência. Um espaço vazio que nenhuma lembrança conseguia preencher.

Na infância, desaparecera durante uma noite inteira.

Os moradores de Maya a procuraram pelas dunas, pelos manguezais e pelas praias iluminadas pela lua. Encontraram apenas pequenas pegadas que terminavam diante do mar. Quando amanheceu, ela apareceu adormecida sobre a areia, sem qualquer ferimento, olhando para o céu como quem acabara de regressar de muito longe.

Jamais contou o que havia acontecido.

Porque, na verdade, não se lembrava.

Os anos passaram. Mas toda vez que caminhava descalça entre as pedras, fragmentos daquela noite começavam a despertar.

Primeiro vinha um perfume que não existia na Terra.

Depois surgiam vozes suaves falando uma língua formada por ondas, vento e luz.

Em seguida apareciam imagens de um enorme oceano suspenso sobre o céu. Nele navegavam embarcações feitas de estrelas líquidas. Seres luminosos conduziam aqueles barcos silenciosos como antigos guardiões das marés.

Ela também estava ali.

Era apenas uma menina.

Recordava mãos delicadas apontando para a Ilha de Maya enquanto uma voz lhe dizia:

"Quando teu coração aprender novamente a ouvir as pedras, recordarás quem és e descobrirás a viagem que ainda precisa fazer."

A memória voltava lentamente.

Cada pedra tocada revelava um novo pedaço daquela travessia esquecida.

Ela compreendeu que nunca fora levada por acaso. Aquela abdução não era um sequestro. Era um chamado.

Os antigos viajantes do céu haviam escolhido Maya porque a ilha escondia um dos Portais , invisível aos olhos humanos. Apenas aqueles que caminhavam descalços, com o coração livre do medo, conseguiam despertar sua energia.

Naquela tarde, enquanto a maré começava a subir, as pedras brilharam por um breve instante.

O mar silenciou.

O vento mudou de direção.

Diante dela surgiu uma passagem feita de luz azul que conduzia para além do horizonte.

Ela sorriu.

Não havia mais dúvidas.

A grande viagem anunciada desde sua infância finalmente começava.

E, naquele instante, a ilha inteira pareceu respirar junto com ela, como se Maya também tivesse esperado muitos anos para que aquela memória encontrasse, enfim, o caminho de volta.


FIM

Assim narrou Primolius

Copyright de Britto, 2023

Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1011


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