Nº 1009 - AMOR FATI - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

 


A estrela-do-mar amanheceu onde ninguém imaginava encontrá-la. Não estava mergulhada nas águas profundas nem escondida entre os arrecifes. Permanecia sobre a areia úmida, iluminada pelo primeiro sol do dia, enquanto o mar respirava diante dela como quem hesitava entre voltar ou partir.

Quem passava acreditava que aquela era uma história de abandono. Diziam que a maré havia falhado, que o destino fora cruel ou que a estrela não conseguiria sobreviver longe das ondas. Todos olhavam para ela com pena, como se a vida só pudesse existir dentro do lugar onde sempre esteve.

A estrela, porém, parecia guardar outro entendimento.

Enquanto o sol aquecia lentamente sua superfície, ela não lamentava o caminho percorrido pelas correntes. Permanecia imóvel, mas não vencida. Havia descoberto que existem momentos em que resistir significa apenas aceitar o instante sem transformar a realidade em inimiga.

O mar continuava chamando. Cada onda aproximava-se alguns centímetros, desenhava espumas delicadas ao redor da areia e depois retornava. Era um convite silencioso. Não havia urgência. Apenas a lembrança de que tudo possui um ritmo que não pertence aos desejos humanos.

Foi então que um velho pescador se aproximou. Abaixou-se diante da estrela e sorriu. Conhecia o movimento das marés havia muitos anos. Sabia que nem toda espera é derrota. Algumas esperas fazem parte do caminho que a natureza escolhe para continuar sendo natureza.

Sentou-se ao lado dela e permaneceu observando o horizonte. Não tentou levá-la de volta ao mar. Também não procurou explicar o motivo daquele encontro. Apenas compreendeu que certas paisagens ensinam mais quando permanecem intactas.

O sol subia lentamente. As gaivotas cruzavam o céu. Pequenos caranguejos riscavam desenhos passageiros na areia. O vento mudava de direção como quem folheava um livro invisível. Tudo parecia ocupar exatamente o lugar que lhe cabia naquele amanhecer.

A estrela-do-mar também.

Naquele instante, ela já não era apenas um animal marinho. Tornara-se um símbolo discreto daquilo que tantas pessoas demoram uma vida inteira para compreender. Nem sempre escolhemos a corrente que nos conduz. Nem sempre decidimos onde despertaremos depois da tempestade. O que realmente nos pertence é a forma como habitamos o lugar onde a vida nos deposita.

Talvez por isso a estrela continuasse voltada para o horizonte. Não esperava um milagre. Apenas recebia o calor do novo dia, como quem entende que cada amanhecer oferece outra oportunidade de existir.

Quando a maré finalmente começou a subir, a água avançou devagar, tocou suas extremidades e, sem violência, levou-a novamente para o mar. Não houve triunfo nem despedida. Apenas continuidade.

A areia permaneceu silenciosa, guardando a marca daquele breve encontro entre o oceano e a terra.

Quem caminhou por ali depois viu apenas o mar.

Mas o velho pescador sabia que algumas histórias nunca desaparecem. Elas apenas mudam de paisagem. E continuam vivendo dentro daqueles que aprenderam que aceitar o próprio caminho não é desistir da vida. É reconhecer que, muitas vezes, a maior coragem consiste em amar o destino exatamente como ele chega.


FIM

Assim narrou Primolius

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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1009

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