N° 1008 - RECADOS NAS ASAS DE MAYA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Em uma tarde silenciosa de Maya, ela permaneceu sentada na beira de um velho telhado de madeira, voltada para o horizonte. Dali, a vila parecia pequena. As casas repousavam entre cajueiros e mangueiras, enquanto o mar respirava lentamente ao fundo, como fazia desde muito antes de qualquer lembrança humana.
O vento atravessava seus cabelos e brincava com o vestido, transformando-o em uma pequena bandeira que dançava sem destino. Não era a paisagem que prendia sua atenção. Era o céu.
Acima das dunas de Mayandeua, algo incomum acontecia.
Centenas de figuras brancas cruzavam o azul da tarde. À primeira vista pareciam pássaros. Depois percebeu que suas asas possuíam dobras perfeitas, feitas como antigas cartas cuidadosamente dobradas pelas mãos de alguém que conhecia o peso das palavras.
Não eram aves.
Eram mensagens.
Cada uma seguia seu próprio rumo, levada pelos ventos de Maya, sem procurar um destinatário específico. Pareciam confiar que o próprio céu encontraria quem precisasse delas.
Ela imaginou que talvez aquelas cartas fossem de pessoas que nunca conseguiram dizer tudo o que sentiam. Talvez fossem despedidas que permaneceram guardadas em gavetas. Talvez fossem pedidos de perdão, sonhos esquecidos ou simples palavras de amor que chegaram tarde demais para serem pronunciadas.
Ali, sobre a ilha, tudo parecia mais leve.
As cartas voavam em silêncio, como se conhecessem o caminho da esperança. Não faziam ruído. Apenas cruzavam o céu lentamente, lembrando que nem toda mensagem precisa ser lida para transformar alguém.
Enquanto observava a revoada, ela percebeu que também carregava cartas invisíveis dentro de si. Eram lembranças antigas, promessas esquecidas e sonhos que haviam permanecido fechados durante muitos anos.
Nenhuma delas precisava mais ser aberta.
O próprio tempo havia respondido o que antes parecia impossível compreender.
Os ventos de Maya continuavam conduzindo os pequenos pássaros de papel para além do horizonte. Alguns desapareciam entre as nuvens. Outros retornavam em grandes círculos, como se visitassem novamente aqueles que ainda precisavam aprender a deixar partir.
Naquele instante, ela descobriu que existem lembranças que não foram feitas para aprisionar ninguém. Foram feitas apenas para ensinar.
Levantou-se devagar.
Não levou nenhuma carta consigo.
Também não tentou alcançar qualquer uma delas.
Seguiu seu caminho compreendendo que algumas respostas nunca pousam em nossas mãos. Elas permanecem voando sobre nossas vidas até que o coração esteja preparado para entendê-las.
E foi então que Maya lhe revelou seu maior segredo.
O vento nunca leva embora aquilo que realmente pertence à alma.
Ele apenas ensina cada lembrança a encontrar o céu.
IM
Assim narrou Primolius
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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1008


