Nº 1007 - JANELA PARA O MAR - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA


A casa de madeira permanecia voltada para o mar havia tantos anos que já parecia fazer parte da própria paisagem de Mayandeua. Suas portas azuis carregavam as marcas do sal, do vento de fora e das chuvas de inverno. Cada camada de tinta que o tempo levava era substituída por outra lembrança, como se a casa tivesse aprendido que envelhecer também é uma forma de permanecer.

Todas as manhãs, antes mesmo que a vila despertasse, a maresia atravessava as frestas das janelas e caminhava pelos cômodos. O cheiro do oceano misturava-se ao perfume das flores plantadas em vasos de barro na varanda. Hibiscos, alamandas e pequenas plantas nativas coloriam o quintal, enquanto um velho jambeiro projetava sua sombra sobre o piso gasto por tantas pegadas.

Dali era possível ouvir o mar antes mesmo de vê-lo. As ondas chegavam como antigas visitantes, repetindo histórias que nenhuma pessoa conseguia contar da mesma maneira. Eram narrativas feitas de banzeiros, rabetas, pescadores, marés cheias, luas enormes e viagens que começavam sempre antes do amanhecer.

Quando as portas eram abertas, o horizonte entrava inteiro na sala.

O sol iluminava o assoalho de madeira e desenhava figuras douradas que mudavam lentamente ao longo do dia. Era como se a própria luz conhecesse todos os caminhos daquela casa. Não havia luxo. Havia tempo. E o tempo, em Mayandeua, possui um modo próprio de caminhar. Ele não corre. Ele acompanha o movimento das marés.

Sentar-se diante daquela porta aberta era um exercício de silêncio. Barcos de pesca cruzavam lentamente o azul da baía. Garças riscavam o céu em voos precisos. Ao longe, algum motor de rabeta rompia a tranquilidade apenas por alguns instantes, logo sendo novamente vencido pelo som constante das ondas.

Quem chegava pela primeira vez talvez enxergasse apenas uma casa simples diante do oceano.

Quem permanecia um pouco mais compreendia que aquela construção guardava uma coleção de vidas.

Cada tábua rangia com lembranças de crianças correndo descalças depois do banho de mar. Cada parede conhecia conversas demoradas à luz de lamparinas, quando a energia ainda era apenas o brilho das estrelas. Cada janela havia testemunhado partidas silenciosas e reencontros marcados pelo abraço de quem retorna depois de muitos dias navegando.

Ao cair da tarde, o céu transformava-se em um grande painel de cores. O laranja encontrava o dourado. Depois surgiam o vermelho, o violeta e um azul profundo que anunciava a chegada da noite. Nesse instante, a casa parecia respirar junto com o mar.

Nenhuma fotografia seria capaz de guardar aquele momento.

Era preciso estar ali.

Era preciso sentir o vento tocar o rosto, ouvir os coqueiros conversarem entre si e perceber que algumas paisagens não existem apenas para serem vistas. Elas existem para reorganizar a alma.

Em Mayandeua, descobri que existem portas que conduzem para dentro de uma casa.

E existem outras que se abrem para dentro de nós.

Aquela velha porta azul fazia as duas coisas.

Sempre que era aberta, o mar também entrava.

E, com ele, voltava a esperança de que ainda há lugares onde o tempo respeita o silêncio, a natureza continua escrevendo suas histórias sobre a areia e o horizonte permanece convidando cada viajante a ficar apenas mais um pouco.

Porque algumas casas abrigam pessoas.

Outras abrigam paisagens.

Aquela casa de Mayandeua guardava as duas.


FIM

Assim narrou Primolius

Copyright de Britto, 2023

Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1007 




Mensagens populares