N° 1005 - RETALHOS DE VIDA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA

 


Todas as tardes, uma senhora retirava de um velho baú uma colcha de retalhos. Sentava-se próximo à janela, onde a luz do fim da tarde iluminava suas mãos marcadas pelo tempo. Com paciência, costurava um novo pedaço de tecido à colcha. Não escolhia os retalhos pela beleza, mas pela história que carregavam.

Havia um pedaço do vestido usado em uma festa de casamento. Outro vinha da camisa de um pescador que enfrentara muitos invernos sobre o mar. Um pequeno quadrado colorido pertencera ao uniforme escolar de uma criança que crescera correndo pelos quintais de terra. Também havia tecidos retirados de redes antigas, toalhas bordadas, lenços e cortinas que testemunharam alegrias, despedidas e reencontros.

Quem observava aquela colcha enxergava apenas costuras. Ela, porém, via uma vida inteira.

Na infância, aprendera que a felicidade cabia em coisas pequenas. O cheiro da terra molhada depois da chuva. Os pés descalços atravessando o quintal. A sombra generosa das árvores. As brincadeiras que só terminavam quando o céu já estava coberto de estrelas. Naquele tempo ninguém imaginava que aqueles instantes se transformariam nas lembranças mais valiosas da existência.

Os anos passaram em silêncio. Casas mudaram. Pessoas partiram. Algumas ruas desapareceram. O calendário continuou virando suas folhas sem pedir licença. Ainda assim, o tempo não conseguiu apagar tudo. Permaneceram fotografias amareladas, cartas esquecidas entre livros, objetos simples e canções capazes de devolver uma época inteira apenas ao serem ouvidas.

A maturidade trouxe outras riquezas. As conversas demoradas nas varandas. O café servido em antigas canecas de ágata. As mãos cansadas depois de um dia de trabalho. Os silêncios compartilhados entre pessoas que já não precisavam explicar seus sentimentos. Foi ali que ela compreendeu que a verdadeira abundância quase sempre habita os gestos mais simples.

Certa manhã, enquanto observava seu reflexo na água de um velho poço, percebeu que dois tempos conviviam no mesmo rosto. A menina curiosa permanecia viva dentro da mulher envelhecida. Os sonhos ainda caminhavam ao lado da experiência. O passado não desaparecera. Apenas aprendera a morar discretamente dentro do presente.

As histórias também nunca deixaram de existir. Crianças continuavam transformando lençóis em palcos de teatro. Velhos contadores preservavam causos à luz das noites tranquilas. Pequenos cadernos, zines e livros mantinham vivas memórias que poderiam desaparecer com o passar das gerações. Cada narrativa preservada tornava-se um novo retalho costurado na grande colcha da memória coletiva.

Quando terminou mais uma costura, ela estendeu a colcha sobre a cama. O sol da manhã atravessou a janela e iluminou cada pedaço de tecido. Nenhum retalho era igual ao outro. Alguns estavam desbotados. Outros conservavam cores intensas. Havia marcas do tempo, pequenos remendos e costuras aparentes.

Era justamente essa diversidade que lhe dava beleza.

Assim também acontecia com a vida. Nenhuma existência era construída por um único momento. Cada pessoa carregava alegrias, perdas, reencontros, esperanças e cicatrizes. Separados, aqueles acontecimentos pareciam fragmentos sem importância. Unidos, formavam a verdadeira identidade de quem percorreu o caminho.

A velha colcha permaneceu sobre a cama como um testemunho silencioso. Não aquecia apenas o corpo. Aquecia a memória de todos que compreendiam que cada retalho preservava uma parte daquilo que o tempo jamais conseguiria apagar.


FIM

Assim narrou Primolius

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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1005 


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