N° 1004 - SILÊNCIO DE AREIA E SAL - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Idylimento acordou antes do sol, não pelo alarme, não pela pressa, mas pelo chamado surdo que o verão em Camboinha colocava dentro do peito como uma maré que não pede licença.
Levantou-se no escuro. Calçou o chinelo errado.
Não corrigiu.
Ele foi andando. Os pés encontraram a areia fria antes que os olhos a vissem. Aquela areia que guardava a forma das passadas dos pescadores como uma memória que o mar ainda não tinha coragem de apagar. Cada passo afundava um pouco. Cada passo era uma decisão de continuar.
O céu começou a falar antes de o sol aparecer.
No horizonte, as estruturas de pesca se recortavam contra a luz nascente, imóveis, sérias, como velhos sábios que já viram tudo e aprenderam a calar.
Idylimento parou. Respirou fundo, não de propósito, mas porque o corpo exige isso diante do belo.
Sentou na beira da água. Os joelhos no peito, os braços em volta das pernas, os olhos no mar.
Uma onda chegou. Lambeu seus pés. Recuou.
Voltou. Como se tentasse dizer algo e desistisse.
E tentasse de novo.
O celular estava no bolso. Ficou lá.
Não havia nada para registrar que a memória não pudesse guardar melhor. Não havia legenda possível para aquilo. Apenas o sal entrando pela boca aberta, o vento ensaiando dentro dos pulmões, o sol subindo, sem fanfarra, sem filtro, sem audiência, como quem não precisa de palmas para fazer o que sempre fez.
Em Camboinha, o tempo não urge.
Ele amadurece.
E ali, naquele silêncio que só a areia e o sol sabem fabricar, Idylimento percebeu que não estava descansando do mundo. Estava, finalmente, descansando dentro dele.
O sol terminou de nascer. Ele ficou mais um pouco.
Porque alguns lugares ensinam que ficar também é uma forma de chegar.
FIM
Assim narrou Primolius
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Projeto Literário e Musical Primolius - N° 1004


