N° 1002 - O SARNAMBI QUEBRADO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA



Na maré baixa de Mayandeua, a areia guardava um sarnambi quase inteiro. Sua concha, moldada pelo tempo, ainda refletia a luz do amanhecer como se carregasse um pedaço do próprio mar. Ao seu redor, as ondas chegavam e voltavam sem pressa, repetindo um movimento tão antigo quanto a memória das águas.

O sarnambi nunca pertenceu apenas à areia. Sua existência era uma extensão da energia do oceano. Cada corrente o havia conduzido, cada maré lhe ensinara um novo caminho. O mar moldava sua forma sem pedir licença, como faz com tudo aquilo que ama e transforma.

Ali, silencioso, parecia apenas uma concha esquecida. Mas dentro dela permanecia a história de muitas tempestades, de muitos sóis e de muitos encontros que ninguém jamais testemunhou.

Então veio uma onda mais forte.

A força da água encontrou a resistência da concha. Houve um pequeno estalo. Em seguida, o silêncio. O sarnambi se partiu em vários fragmentos.

Cada pedaço recebeu um destino diferente. Alguns permaneceram enterrados na areia. Outros foram levados pela correnteza. Alguns viajaram para praias distantes. Outros desapareceram entre pedras, recifes e manguezais.

Talvez jamais voltassem a se encontrar.

Mas cada fragmento continuava carregando a mesma energia do mar. Nenhum deixou de ser parte daquela história. Apenas passaram a escrevê-la em lugares diferentes.

Assim também acontece com a vida humana.

Há pessoas quebradas pelo tempo. Outras foram partidas pelas palavras, pelo abandono, pela dor ou pelo peso dos próprios dias. Algumas foram apenas pisadas por quem nunca percebeu que ali existia uma história inteira.

Cada pessoa leva consigo pedaços que nunca mais reencontra.

Mesmo assim, esses fragmentos continuam vivos. Viajam por outros caminhos, encontram novos afetos, constroem outras memórias e deixam sinais por onde passam, como o mar espalha conchas sobre a areia.

Talvez ninguém consiga reunir todos os pedaços daquilo que um dia foi inteiro.

Mas o mar ensina que até os fragmentos continuam pertencendo à mesma imensidão.

Porque nenhuma vida termina quando se quebra.

Ela apenas aprende a seguir em outras direções.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 1002



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