Nº 1000 - HISTÓRIA PARA GATOS DORMIREM - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Rebeca tinha o estranho costume de conversar com a Lua antes de dormir. Sentava-se no telhado de sua casa, em Maya, abraçada ao seu pequeno gato de pelos dourados. Enquanto todos acreditavam que ele apenas ronronava de felicidade, Rebeca percebia algo diferente. Os olhos do bichano mudavam de cor sempre que uma estrela riscava o céu.
Numa dessas noites, ela perguntou:
"Você veio de muito longe, não veio?"
O gato ergueu as orelhas. Não miou. Apenas olhou para o horizonte, como quem esperava um sinal.
Na manhã seguinte, Rebeca encontrou pequenas marcas brilhantes na areia da praia. Não eram pegadas de gente, nem de cachorro, nem de qualquer animal conhecido em Mayandeua. Eram círculos delicados, desenhados como se alguém tivesse caminhado sobre a luz.
Foi então que ela compreendeu.
Seu gato não havia nascido na Terra.
Era um viajante do planeta Marte.
Sua missão era simples e, ao mesmo tempo, gigantesca. Observar como os habitantes de Maya tratavam o mar, os manguezais, os pássaros, os caranguejos, as árvores e os próprios sonhos.
Enquanto todos pensavam que ele dormia nas janelas ou descansava à sombra das mangueiras, o pequeno viajante registrava cada gesto de bondade e cada descuido cometido pelos homens. À noite, quando ninguém percebia, seus longos bigodes transformavam-se em finíssimas antenas invisíveis. As informações cruzavam o espaço e chegavam a Marte em poucos segundos.
Rebeca decidiu guardar aquele segredo.
Passou a observar as pessoas ao lado de seu companheiro. Descobriu que quem fazia carinho em um animal quase sempre respeitava a natureza. Quem recolhia um pedaço de lixo da praia também ajudava o mar a respirar. Quem plantava uma árvore deixava um presente para as crianças que ainda nasceriam.
Os dias passaram.
O gato continuava parecendo apenas um gato. Corria atrás de folhas levadas pelo vento, dormia enrolado nas redes, fingia assustar-se com as borboletas e desaparecia por alguns minutos sempre que a Lua surgia cheia. Era um excelente disfarce.
Somente Rebeca sabia que, por trás daqueles olhos dourados, existia um explorador das estrelas.
Certa madrugada, uma luz avermelhada iluminou discretamente o céu de Maya. O gato levantou a cabeça, olhou demoradamente para a Lua e depois para Rebeca. Esfregou o focinho em sua mão, como se agradecesse pela amizade.
Naquele instante, ela compreendeu que algumas amizades atravessam oceanos. Outras atravessam planetas.
Quando amanheceu, o gatinho permanecia no mesmo lugar, dormindo tranquilamente como qualquer outro felino. Mas Rebeca sabia que, enquanto sonhava, ele continuava sua missão silenciosa.
Desde então, sempre que alguém pergunta por que os gatos passam tanto tempo olhando para o céu, Rebeca responde com um sorriso:
"Porque eles nunca esqueceram o caminho das estrelas."
E quando um gato adormece profundamente, talvez esteja voltando, por alguns instantes, ao planeta de onde veio.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 1000


