N° 0999 - EU, MARÍTIMA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
PARTE 1
EU NASCI DE SAL E VIREI LENDA
Sou Marítima. Nasci onde os recifes antigos conversam com a maré e onde as conchas guardam vozes de um tempo que ninguém consegue medir. Contam que já completei cento e trinta anos. Nunca desmenti. O mar não conta idade. Conta marés.
Desde menina, eu fechava os olhos e imitava os ventos. Bastava sentir sua direção para descobrir o que acontecia em outros mares. O vento trazia notícias de tempestades, de navios perdidos, de cardumes felizes e de praias que ainda esperavam pela primeira onda do amanhecer.
Muitos chamavam isso de superstição.
Eu chamava de memória do oceano.
Aprendi cedo que o mar fala baixo. Só entende quem consegue silenciar o próprio coração.
Carrego sal na pele, areia nos passos e a certeza de que pertenço muito mais às águas do que à terra firme.
PARTE 2
MEU CASAMENTO COM O MAR
Quando completei cento e trinta anos, percebi que nenhuma promessa humana poderia ser maior do que aquela que eu já fazia ao oceano todos os dias.
Entrei na água durante uma noite de lua cheia.
As ondas vieram ao meu encontro como velhos amigos.
O vento silenciou.
As estrelas permaneceram imóveis.
Então o mar me abraçou.
Foi ali o nosso casamento.
Sem igreja.
Sem testemunhas.
Sem alianças.
Recebi apenas um colar de espuma, um vestido tecido pela maré e um sobrenome que ninguém poderia apagar.
Desde aquela noite, nunca mais caminhei sozinha.
Cada onda passou a reconhecer meus passos.
Cada maré aprendeu meu nome.
PARTE 3
O MAR É A MINHA CASA
Continuo defendendo as tartarugas, os meros, os tubarões, as baleias e toda criatura que transforma o oceano em vida.
Gosto do futebol dos povos porque ele também nasce do encontro, da coletividade e da alegria. Mas quando a partida termina, volto sempre para onde pertenço.
Minha verdadeira torcida está nas baleias que cantam sem plateia.
Nos bottos que desenham sorrisos sobre as ondas.
Nas tartarugas que atravessam oceanos sem esquecer o caminho de casa.
Nos ventos que continuam trazendo histórias de mares distantes.
Eu não pertenço ao mundo.
Pertenço às águas.
Enquanto existir uma maré beijando a areia, um vento cruzando o horizonte e uma estrela refletida sobre o oceano, eu continuarei vivendo.
Porque eu não casei apenas com o mar.
Eu me tornei parte dele.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0999


