N° 0997 - MENINICE - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Os trapiches antigos eram o coração da vila. Feitos de tábuas gastas pelo sol, pela chuva e pelos passos de muitas gerações, guardavam histórias que jamais foram escritas. Cada pedaço de madeira conhecia o nome de uma criança, o primeiro mergulho, a primeira pescaria e a coragem de quem aprendia a vencer o medo da água.
Logo cedo, meninos e meninas caminhavam descalços pelas pontes. Alguns levavam apenas uma vara de pescar. Outros carregavam sonhos maiores que o próprio rio. O destino era sempre o mesmo. Encontrar os amigos e fazer daquele dia uma nova aventura.
Quando o sol alcançava o alto do céu, começava a verdadeira festa da meninice. Os mais corajosos disputavam quem mergulhava primeiro. Outros inventavam barcos com pedaços de madeira. Havia quem passasse horas pescando pequenos peixes apenas pelo prazer de esperar.
As águas refletiam os risos que ecoavam entre os trapiches de Maya. Não existiam brinquedos caros, nem aparelhos eletrônicos. Existia liberdade. Existia imaginação. Existia o vento trazendo o cheiro da maré e das árvores que cercavam a vila.
No fim da tarde, as famílias se reuniam nas varandas. As crianças ainda molhadas ouviam histórias dos mais velhos sobre pescadores, encantados e antigas travessias. Cada narrativa aumentava o encanto daquele lugar onde o tempo parecia caminhar mais devagar.
As férias não eram apenas um descanso da escola. Eram uma escola da vida. Ensinavam amizade, respeito, coragem e o valor das pequenas alegrias.
Hoje, muitas daquelas pontes já não existem como antes. Algumas foram reconstruídas. Outras ficaram apenas na lembrança de quem viveu aqueles dias. Mas a verdadeira ponte nunca desapareceu. Ela continua ligando a infância ao coração de cada pessoa que passou por Maya.
Sempre que alguém sente o cheiro da madeira molhada, escuta o barulho de um mergulho ou observa um trapiche iluminado pelo fim da tarde, uma parte daquela meninice desperta novamente. O rio continua levando suas águas para o mar, mas jamais consegue levar embora as lembranças de quem aprendeu ali o verdadeiro significado da liberdade.
Porque crescer é inevitável. Esquecer a infância é uma escolha.
E as antigas pontes de madeira de Mayandeua continuam sustentando, invisivelmente, todos aqueles que um dia correram sobre elas com os pés descalços, o coração leve e a certeza de que a felicidade morava nas coisas mais simples.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0997


