N° 0995 - O BRAÇO DE MAR: SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
Isadora nunca acreditou que todos os caminhos precisavam de terra firme. Desde menina, olhava pela janela da velha casa de madeira e via um estreito braço de mar serpenteando entre os manguezais de Mayandeua. Não era um lugar de grandes embarcações. Era um caminho silencioso, onde a maré entrava devagar, como quem pedia licença à floresta.
Ela dizia que um dia viajaria por aquelas águas.
Ninguém entendia. Alguns sorriam, outros respondiam que não havia nada para conhecer além da próxima curva. Mas Isadora sabia que certos lugares não existiam para serem vistos. Existiam para serem sentidos.
Na primeira manhã de agosto, colocou uma pequena mochila dentro da canoa. Levou apenas um caderno, uma garrafa de água, um pedaço de pão e um lápis. Não precisava de mais nada. O vento soprava leve e fazia dançar a cortina da janela, como se a própria casa estivesse lhe dando adeus.
A maré estava cheia. A canoa deslizou sem esforço.
Os guarás riscavam o céu. Garças caminhavam sobre o espelho d'água. Os caranguejos desapareciam entre as raízes do mangue. Cada curva revelava um mundo diferente. O silêncio não era vazio. Era cheio de vozes da natureza.
Isadora percebeu que viajar por um braço de mar era diferente de viajar pelo oceano. No oceano, o homem enfrenta a imensidão. No braço de mar, aprende a escutar.
Ali, o vento falava baixo. A água contava histórias antigas. As árvores pareciam guardar lembranças que pertenciam ao tempo em que homens e natureza caminhavam sem medo um do outro.
Quando o sol começou a descer, ela parou a canoa no encontro das águas. Não encontrou cidades escondidas nem tesouros perdidos. Encontrou algo mais raro.
Encontrou a calma.
Na volta, percebeu que o caminho era exatamente o mesmo. Quem havia mudado era ela.
Ao abrir novamente a janela de sua casa, viu a cortina balançando ao vento. Sorriu.
Compreendeu que alguns lugares nunca deixam de nos esperar. Basta que o coração encontre coragem para partir.
Desde então, sempre que a maré sobe em Mayandeua, Isadora olha para aquele braço de mar e sabe que ainda existem viagens que não conduzem a outro destino, apenas nos levam de volta àquilo que sempre fomos.
FIM
Copyright de Britto, 2023
Projeto Literário e Musical Primolius N° 0995
- Obter link
- X
- Outras aplicações


