Nº 1010 - JÓIAS DO ALÉM MAR - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Havia homens que atravessavam oceanos em busca de ouro. Outros sonhavam com cidades perdidas ou coroas esquecidas sob a areia do tempo. Valerius, porém, jamais desejou riquezas comuns. Seu destino sempre apontou para um horizonte que poucos ousavam contemplar: o Além Mar, onde repousavam as lendárias Joias do Além.
Os antigos pescadores de Maya contavam que aquelas joias não pertenciam ao mundo dos homens. Eram lágrimas derramadas por deuses ancestrais quando contemplaram, pela última vez, a criação da vida. Ao tocarem a espuma das ondas proibidas, essas lágrimas endureceram e passaram a emitir uma luz silenciosa, capaz de revelar lembranças que nem o próprio tempo conseguia apagar.
Foi no antigo Cais de Ébano que Valerius iniciou sua travessia. Sua caravela não possuía velas comuns. Eram tecidos feitos de sonhos abandonados, recolhidos pelos ventos durante séculos. Os marinheiros diziam que quem navegasse por aquelas águas deveria esquecer o próprio nome antes mesmo de perder de vista o continente. O Além Mar não aceitava homens presos ao passado. Exigia que cada viajante deixasse parte de si antes de atravessar suas fronteiras invisíveis.
Durante muitos meses não houve tempestades nem ventos. Apenas um silêncio tão profundo que parecia apagar os pensamentos. As estrelas permaneciam imóveis e o oceano transformava-se em um espelho sem fim. Foi então que as águas adquiriram a transparência do cristal. Sob o casco da embarcação surgiram montanhas de safira, florestas de corais luminosos e antigas construções que pareciam pertencer a uma civilização esquecida pelos próprios deuses.
Valerius compreendeu que havia chegado.
Sem hesitar, mergulhou naquele abismo azul. Não precisava de ar. Era guiado por uma antiga melodia que vibrava dentro dos ossos, como se o próprio mar o chamasse pelo nome que havia esquecido.
No fundo daquele universo líquido encontrou o Colar das Eras. Cada pedra guardava a memória de um século inteiro. Ao tocar a primeira joia, viu nascerem as estrelas. Na segunda, assistiu ao florescimento das primeiras florestas. Na terceira, observou impérios erguerem-se e desaparecerem como castelos de areia diante das marés. Cada fragmento continha vidas, sonhos, guerras, amores e esperanças condensados em uma única centelha de luz.
Ali compreendeu que nenhuma riqueza do mundo poderia ser comparada ao conhecimento acumulado pelo tempo.
Entretanto, o Além Mar jamais oferecia presentes.
Toda beleza possuía um preço.
Para levar consigo apenas uma Pérola da Eternidade, Valerius precisou abandonar a própria sombra. Quando retornou ao mundo dos homens, ainda carregava o colar junto ao peito. As joias brilhavam como pequenos sóis azulados, mas seus pés já não deixavam marcas na areia. O sol atravessava seu corpo sem reconhecê-lo, e os espelhos recusavam sua imagem.
Os habitantes de Maya diziam que, em algumas madrugadas, um viajante silencioso caminhava próximo ao Igarapé da Nazaré, seguindo lentamente pela Trilha Encantada. Os pássaros não fugiam de sua presença. As águas permaneciam imóveis quando ele passava. Era como se toda a natureza reconhecesse o guardião das Joias do Além Mar.
Desde então, Valerius compreendeu que o verdadeiro tesouro nunca esteve nas pedras luminosas que carregava sobre o peito. A maior riqueza era a capacidade de preservar a memória daquilo que ninguém mais conseguia enxergar.
E assim continua caminhando entre o reflexo e a realidade, invisível aos olhos dos homens, mas eternamente lembrado pelas águas de Maya, que ainda guardam o brilho das lágrimas dos antigos deuses e o silêncio daqueles que escolheram pagar o preço da eternidade.


