N° 0982 - O TOCA FITAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA


Direto de Mayandeua 

A fita ficava guardada na gaveta. Era fina. Era frágil. Tinha um cheiro leve de plástico e poeira  esse cheiro que ninguém esquece e ninguém consegue descrever direito. Cada fita guardava um tempo inteiro. Não era só música. Era dia vivido. Era tarde parada. Era voz que não voltava mais.

O toca fitas ficava em cima da cômoda. Não era novo. Tinha marcas de uso  arranhões, desgastes, a memória impressa no corpo do objeto. O botão do play já não voltava direito. Mesmo assim, funcionava.

Sempre funcionava. A infância cabia ali dentro. Cabia inteira. Bastava apertar um botão. O quarto era pequeno. A parede tinha marcas de umidade. O chão era frio de manhã. O sol entrava pouco. Ainda assim  e isso é o que importa  aquele espaço bastava.

O toca fitas ficava perto da janela. A luz batia nele no meio da tarde. A casa ficava quieta nesse horário. O calor pedia silêncio. O corpo pedia sombra. O mundo parecia andar mais lento  e talvez andasse mesmo.

Antes de apertar o play, vinha o cuidado. A fita precisava estar certa. O lado certo. A posição certa. Um erro podia engolir tudo. A fita enrolava. O coração apertava. Era preciso paciência  aquela paciência que não se aprende em livro, que só a mão aprende fazendo.

Rebobinar era um gesto longo. O dedo girava. O som raspava baixo. O tempo voltava devagar.

Ninguém tinha pressa.

A pressa não combinava com aquilo.

O toca fitas acordava junto com o dia. Às vezes antes. Bastava alguém passar perto e encostar sem querer. O som surgia de repente. Assustava. Depois virava riso  esse riso curto e bom que a surpresa pequena provoca.

A fita girava devagar. O som saía com ruído. Esse ruído virava parte da música. Ninguém reclamava. Ninguém pensava em reclamar. Era assim que tinha de ser  e o assim que tinha de ser, às vezes, é exatamente o que é bom.

As músicas ensinavam palavras novas. Ensinavam ritmo. Ensinavam pausa. A criança aprendia sem saber que aprendia  que é o único jeito de aprender de verdade ( Um calendário Virtual no futuro).

O corpo se movia sozinho. Um pé batia no chão. A cabeça balançava. O resto vinha junto.

O quarto virava mundo.

A cama virava palco.

A cadeira virava plateia.

A parede virava cenário.

Não havia plateia de verdade. Não havia aplauso. Mesmo assim  e especialmente por isso  tudo fazia sentido.

O toca fitas aceitava qualquer coisa.

Cantoria desafinada. Palmas fora de hora. Voz fina demais. Voz grossa demais. Letra errada. Tom errado. Nada era errado. O aparelho não julgava  e essa falta de julgamento era o maior presente que ele dava.

A infância cabia ali porque não precisava caber em lugar nenhum. Ela se espalhava. Pelo quarto. Pelo corredor. Chegava na cozinha. Alguém ouvia lá do fundo e sorria sem aparecer.

A casa reconhecia aquele som. Era sinal de que estava tudo bem.

Às vezes a fita engasgava. O som ficava torto. A voz afinava errado, esticada e estranha. A criança ria. Achava graça. Não tinha raiva  porque havia coisas que ainda não eram motivo de raiva.

Era preciso abrir o aparelho. Usar o dedo. Girar com cuidado. O medo de estragar vinha junto  e o cuidado também, logo atrás, como irmão mais velho.

Esse cuidado ensinava limite. Ensinava que as coisas pedem atenção. Ensinava que força demais estraga  e que tem hora que o jeito certo é o jeito suave.

O toca fitas ensinava sem falar.

Ele exigia calma.

Ele exigia tempo.

Ele exigia presença.

Do lado de fora, a rua chamava. Bola batendo. Gente passando. Voz de vizinho. O mundo inteiro cabendo numa tarde de criança. Mas o quarto segurava por mais um pouco. O som criava um mundo fechado um mundo que cabia ali dentro, menor que o outro lá fora e, por isso, mais seguro.

As músicas se repetiam. A criança não enjoava. Cada vez parecia diferente. Um detalhe novo aparecia  uma nota, uma palavra, uma respiração do cantor que antes não se havia notado.

O refrão era esperado. A batida conhecida dava segurança. O corpo antecipava o som  e essa antecipação era uma forma de felicidade.

Quando a fita acabava, vinha o silêncio.

Um silêncio curto. Logo alguém virava o lado. A história continuava  porque havia sempre o outro lado, e o outro lado era sempre uma surpresa com cara de coisa conhecida.

Não havia pressa em mudar. Não havia excesso de escolha. O pouco bastava. A infância não pedia mais. Ela ocupava o que tinha  e o que tinha era suficiente para tudo.

O toca fitas também guardava segredos.

Gravações feitas por cima de outras. Vozes cortadas no meio. Sons que não se entendiam. Mistérios pequenos que ninguém resolvia  e que, por não serem resolvidos, ficavam para sempre.

Tudo isso virava memória. Mesmo sem saber, o corpo guardava. Cada som, cada ruído, cada engasgo da fita.

Anos depois, bastava ouvir algo parecido. O peito reconhecia antes da cabeça. O tempo dobrava  e de repente você estava lá de novo, no quarto pequeno, com o chão frio e a luz fraca e a fita girando.

A infância voltava inteira. Não em imagens. Em sensação.

O toca fitas era um portal simples.

Não precisava de senha. Não precisava de tela. Não precisava de sinal. Só precisava de uma fita, um dedo, e alguém disposto a ouvir.

Ele ensinava a ouvir antes de ver. A sentir antes de explicar. A estar antes de entender.

Hoje tudo toca ao mesmo tempo. Tudo chama. Tudo pede atenção  e justamente por pedir de todos os lados, nenhum pedido chega de verdade. O som está em todo lugar e em lugar nenhum.

Naquele tempo, o som esperava. A música sabia o seu lugar. E esse lugar era sagrado  pequeno, frágil, cheio de poeira e plástico e amor.

A infância cabia ali porque o mundo ainda cabia dentro da gente.

Não havia urgência.

Não havia excesso.

Havia presença.

O toca fitas não prometia nada.

Só tocava.

E isso bastava  porque havia uma época em que bastar era suficiente, e suficiente era tudo.

A infância cresceu. O aparelho ficou velho. A fita se perdeu em alguma mudança, em alguma gaveta que ninguém abriu mais. Mas algo ficou guardado  um jeito de ouvir. Um jeito de ficar quieto perto do som. Um jeito de deixar a música entrar devagar.

Quando o silêncio aparece, ele ainda traz aquele som antigo.

E por um instante  só um instante, mas suficiente tudo volta a caber dentro de um toca fitas.

"A fita era fina. Era frágil. Tinha um cheiro que ninguém esquece. Cada uma guardava um tempo inteiro  e o tempo, quando guardado com cuidado, não se perde nunca."

- K7 Vida!

- Assim narrou Primolius em uma varanda de Maya.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0982

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