N° 0981 - O MAR E AS CORDILHEIRAS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Somos navegadores inconstantes. Os ventos que nos movem são nossos próprios e é exatamente por isso que às vezes nos perdem. Nos capítulos que ainda não viraram, o peso nos espera: expectativas que ficaram no cais, sonhos que perderam o barco, o velho impulso de ser mais do que o espelho devolve.
Esse espelho está quebrado. Sempre esteve. E seus cacos refletem não o que somos mas o que tememos ter sido. Cada erro tem endereço. Cada perda, data e hora. São cicatrizes num livro feito de vidro frágil, sim, mas jamais vazio. Transparente o suficiente para que a luz atravesse. Repleto o suficiente para que nada seja apagado.
Apagar seria trair. Seria negar a profundidade das alegrias que duram pouco e das tristezas que ensinam muito. Há dias nublados a melancolia bate à porta sem avisar. Mas há também o instante em que uma música rompe tudo: uma sinfonia de Beethoven, um samba de Zeca, um carimbó de Chico Braga em alguma parte do mundo e o peito abre, e o tempo para, e somos, por um brevíssimo momento, inteiros.
E então, Maya aparece.
Não com barulho. Com presença. Serena como rio que conhece seu destino. Magnética como a lua sobre o mar de Mayandeua.
Nas cordilheiras das nossas inseguranças onde o ar rareia e os pés vacilam ela não aponta o caminho: ela é o caminho. Com paciência de quem já escalou tudo isso antes, desata, um por um, os nós que amarraram nossos desejos mais fundos ao silêncio.
Maya não resolve. Ela revela.
E isso revelar é o ato mais poderoso que existe.
O que somos, no fundo? As palavras que escolhemos para nos contar. Somos autores e personagens ao mesmo tempo e a todo amanhecer, a pena está na mão. A decepção de ontem vira capítulo de aprendizado. A tristeza de hoje, semente do que florescerá amanhã.
O livro de vidro não apaga. Mas cada nova página é uma porta.
A incerteza não vai embora ela fica, feito companheira de viagem. Mas junto dela fica também o desejo: de viver com volume, de saborear cada acorde, de compor a trilha sonora única que só nós podemos compor.
Entre mares revoltos e picos íngremes, navegamos e escalamos.
A travessia é dupla: o mar lá fora e o mar dentro. As cordilheiras do mundo e as cordilheiras da alma ambas pedem o mesmo de nós: presença, coragem e o passo seguinte. E Maya segue ao lado. Com amor que não pede nada em troca só autenticidade. Só a verdade de ser quem se é, sem rasuras, sem máscaras, sem âncoras desnecessárias.
Que continuemos a escrever. Capítulo por capítulo, verso por verso, sem terror do que não tem nome ainda. Como nos lembra Maya: não importa o que aconteceu contigo importa o que você faz com o que aconteceu.
Então abraçamos o inesperado. Abrimos o peito às surpresas do destino. E seguimos navegando por mares fundos, escalando as cordilheiras da nossa própria alma, com a certeza de que a história ainda não terminou.
E nunca vai terminar enquanto houver página em branco e vontade de escrever. Entre mares e montanhas, o que nos move não é o vento é o que carregamos dentro.
- Assim narrou Primolius em um banco de praça.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0981


