N° 0980 - O MENINO QUE QUERIA SER VENTO - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Antes de ter nome, ele já tinha direção.
Nascia para o vento como as sementes nascem para o ar sem escolha, sem hesitação, com a certeza silenciosa das coisas que simplesmente são. Enquanto o mundo ao redor se contentava com cheiros fabricados e sons repetidos, ele buscava o que não podia ser guardado: o perfume da folha molhada, o canto sem dono dos pássaros, o murmúrio das árvores que falam apenas para quem aprendeu a ficar quieto.
Quando lhe perguntavam o que seria, respondia com um sorriso que carregava mais do que palavras podiam carregar: "Eu quero ser um vento."
Não era resposta de criança. Era profecia.
A rede de dormir foi seu primeiro templo. Ali, embalado pelo ritmo de Mayandeua que só o vento conhece de verdade, ele aprendia a língua das coisas invisíveis a gramática das folhas em movimento, a sintaxe da luz ao entardecer desenhando runas sobre sua pele. E nos sonhos que a rede oferecia, uma roda-gigante surgia no horizonte de uma praia sem fim, com engrenagens de ouro girando ao compasso das ondas, e ele estava lá em cima, pequeno e imenso ao mesmo tempo, tocado pelo oceano de Maya como se o oceano fosse um deus que o reconhecesse.
Cresceu com os pés na terra e no mangue e o coração em altitude.
Descobriu, com o tempo, que as palavras também voam que uma frase bem colocada tem a mesma liberdade de uma semente lançada ao vento, e o mesmo poder de se fixar em terra desconhecida e germinar algo que ninguém esperava. Cada palavra que escrevia era uma folha levada. Cada história, um pássaro que partia sem data de regresso. E a natureza habitava tudo: o vento que sussurrava conselhos entre as linhas, as árvores que murmuravam nos parágrafos, o mar que abria espaço entre uma vírgula e outra para que a saudade coubesse.
A vida, percebeu, era um circo maior do que qualquer picadeiro um circo que não anunciava horário e não cobrava entrada, mas exigia presença inteira. Nele, a roda-gigante girava ora devagar, revelando o pôr do sol em laranja sobre o mar, ora rápido demais, até que o mundo virava luz e sombra misturadas, vertigem pura. Mas mesmo no giro mais veloz, havia uma sabedoria: é o movimento que nos mantém vivos. Parar é que mata.
Então ele voltava sempre à rede.
Como quem retorna a um oráculo, como quem busca o fio do próprio começo. Ali, sob as árvores que guardam memória de tudo que passou por elas, ele se balançava e entendia que sua história não tinha ponto final tinha reticências, sempre reticências, esse sinal de pontuação que é uma promessa: ainda há mais.
E o espetáculo nunca cessa.
O menino que virou vento continuava girando, idealizando letras coloridas em fios de destino que não se fecha porque não precisa porque a maior liberdade não é chegar, mas poder continuar partindo, sempre com o coração aberto para o que a natureza ainda não revelou.
- Assim narrou Primolius em baixo de uma jaqueira.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0980


