Nº 0979 - A ASTRONAUTA GYGY - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 


Havia um lugar no universo que os mapas não sabiam nomear.

Não porque os cartógrafos fossem negligentes  mas porque esse lugar existia entre dois piscares de estrela, naquele instante exato em que a luz hesita antes de viajar. Chamavam-no de Astrobryllus, e quem o via pela primeira vez jurava, depois, que havia sonhado. O planeta respirava. Isso não era metáfora  era fato observável por qualquer viajante que chegasse com paciência suficiente. Seu manto violeta se expandia levemente a cada ciclo de duzentas horas, e seus anéis dourados pulsavam como veias de um ser antigo, cheias de uma substância que não era luz nem matéria, mas algo que existia antes de ambas.

Lá vivia Gygy.

Ela não era exatamente uma astronauta  pelo menos não no sentido que a palavra carrega na Terra, com seus capacetes brancos e combustíveis inflamáveis. Gygy explorava o cosmos com o corpo inteiro, como quem mergulha num oceano que nunca tem fundo. Suas roupas, tecidas de fios que só existiam após o amanhecer de planetas muito jovens, brilhavam com uma luz própria  não refletida, mas nascida de dentro. E ela tinha seu guarda-sol: um círculo de tecido tão fino que atravessava a luz sem quebrá-la, suspenso no ar por uma lógica que ignorava a física e obedecia apenas à intenção de quem o segurava. Quando Gygy queria voar, voava. Quando queria pousar, o universo abria espaço.

Sua missão  que ela mesma havia escolhido antes de saber que era missão  era visitar os Jardins dos Sonhos. (Mayandeua era um deles) 

O jardim a esperava do outro lado de uma dobra no céu. Gygy atravessou essa dobra como quem vira uma página  com cuidado, para não rasgar o que havia escrito antes. E do outro lado, tudo se abriu. O jardim não crescia sobre a terra. Crescia sobre o ar. As flores não tinham raízes  tinham memórias. Cada pétala guardava uma cena esquecida por alguém em algum lugar do universo: um rosto que se afasta, uma palavra que nunca foi dita, um abraço que chegou tarde demais. Eram flores feitas de ausências, e por isso brilhavam com uma intensidade perturbadora  porque o que falta sempre ocupa mais espaço do que o que está.

As árvores sussurravam. Não era o vento  não havia vento ali, ou melhor, o vento e as árvores haviam concordado, há muito tempo, em ser a mesma coisa. O que se ouvia era uma sobreposição de histórias contadas ao mesmo tempo em idiomas que não existiam mais, mas que a alma ainda compreendia se ficasse quieta o bastante.

E havia a chuva.

Ela não caía. Ela subia. Fragmentos de sonhos  não os sonhos lembrados ao despertar, mas os sonhos que acontecem no espaço entre um pensamento e outro, durante o dia, enquanto o mundo exige atenção  desprendiam-se de cada ser vivo em cada canto do cosmos e subiam em direção ao céu do jardim. Lá, tocavam a abóbada transparente e se transformavam. Primeiro em luz. Depois em movimento. Depois em asas. Borboletas.

Gygy abriu seu caderno  um objeto que parecia feito de casca de nuvem solidificada  e começou a trabalhar. Cada borboleta precisava de um nome. Não era tarefa simples. Nomear, para Gygy, não era etiquetar  era reconhecer. Era olhar para um ser e dizer eu te vi. E quando alguém é verdadeiramente visto, algo nele se aquieta e algo nele acorda ao mesmo tempo.

Ela nomeou uma formiga que carregava uma folha três vezes maior que seu próprio corpo: Guardiã da Serenidade. A formiga não parou  mas algo em seu passo mudou, como se uma dignidade que ela sempre teve mas nunca soubera tivesse encontrado, enfim, sua palavra. Ela nomeou uma jacinta que dançava em espirais próximo ao Lago da Princesa sem destino aparente: Sonhadora das Estrelas. A jacinta não mudou sua rota  mas a espiral passou a ter um centro. E então Gygy nomeou as borboletas, uma a uma, com a mesma seriedade de quem escreve um tratado ou planta uma semente: Mensageira da Paz. Guardiã das Estrelas. Filha da Tempestade Calma. Tecelã do Amanhecer. Portadora do Esquecimento Necessário. Cada nome era uma história inteira comprimida numa frase, e cada borboleta, ao ser nomeada, ganhava um brilho ligeiramente diferente  não mais forte, apenas mais definido, como um contorno que antes era sugestão e agora era certeza.

Entre uma observação e outra, Gygy parava. Estendia as mãos no ar e, com a ponta dos dedos, criava luz. Não era magia  ou era, dependendo de como se define a palavra. Era uma linguagem. O único idioma que Astrobryllus compreendia em sua totalidade: flashes de cor em sequências que carregavam não apenas informação, mas sensação. Um flash azul lento significava encontrei algo que não cabe em palavras. Uma sequência de dourado interrompida por violeta significava o jardim está mais vivo do que da última vez. E um único ponto de branco, sustentado por três segundos, significava simplesmente estou bem. Em Astrobryllus, seres de olhos como lagos recebiam os sinais e sorriam  não porque compreendiam tudo, mas porque compreender tudo nunca foi o objetivo. O objetivo era a conexão. E a conexão existia.

Foi no fim da tarde  ou no que o jardim chamava de tarde, uma hora em que a luz ficava mais densa e o ar mais quieto  que Gygy a encontrou. Uma borboleta parada. Numa flor que parecia feita de tempo cristalizado, ela simplesmente estava. Suas asas carregavam um brilho que não oscilava  firme como uma convicção, intenso como uma decisão já tomada mas ainda não executada.

Gygy se aproximou com o cuidado de quem sabe que há coisas no universo que se desfazem se tocadas com pressa. Ajoelhou-se. Esperou.

— Você está esperando por algo, não está?  ela perguntou, e sua voz saiu mais suave do que planejava, como se o jardim tivesse ajustado o volume por conta própria.

A borboleta moveu as asas. Apenas uma vez. Devagar. Como quem respira fundo antes de falar. E então voou  não rapidamente, não como quem foge ou como quem foi libertada, mas como quem decidiu. Com direção. Com peso. Como se cada batida de asa custasse algo e valesse ainda mais.

Gygy ficou parada, observando. E foi naquele silêncio que a lição chegou  não em forma de palavras, mas em forma de entendimento, aquele tipo de compreensão que não precisa ser pensada porque simplesmente entra. A borboleta não esperava que o futuro a alcançasse. Ela estava reunindo o presente dentro de si  cada segundo, cada grão de luz da chuva invertida, cada fragmento de sonho que subia do cosmos  e tornando esse presente espesso o suficiente para sustentar o peso de uma decisão. O futuro não chegava. O futuro era convocado.

Gygy ficou de pé lentamente. Ao seu redor, o jardim pulsava em harmonia perfeita  flores lembrando, árvores narrando, borboletas construindo o que seria o amanhã de mundos que ela nunca veria. E ela estava ali, no centro de tudo aquilo, pequena e inteira ao mesmo tempo. Estendeu os dedos. O sinal que enviou para Astrobryllus durou mais do que todos os outros. Era feito de uma cor que não tinha nome em nenhum idioma  algo entre o âmbar e o índigo, com uma vibração que os seres do planeta descreveram, depois, como a sensação de entender o que sempre soubemos mas nunca havíamos formulado. A mensagem era simples: o presente é onde o futuro dorme antes de nascer.

Gygy voltou para Astrobryllus com o caderno cheio e o coração mais pesado não de tristeza, mas do peso bom das coisas aprendidas, que ocupam espaço e exigem que a pessoa seja um pouco maior do que era antes. Quando pousou, os habitantes do planeta a cercaram sem dizer nada. Apenas olharam para ela, e ela olhou para eles, e isso foi suficiente. Às vezes a chegada não precisa de palavras  precisa apenas de presença.

Ela abriu o caderno e mostrou os nomes das borboletas. Cada um deles foi lido em silêncio, como se fossem poemas curtos. E de certa forma eram  porque todo nome verdadeiro é uma forma de poesia, a tentativa de capturar com sons o que só pode ser sentido.

Lá fora, pelo espaço enorme e quieto, as borboletas do Jardim dos Sonhos continuavam voando  carregando os fragmentos de sonhos de todos os seres que, em algum ponto do cosmos, haviam desejado algo com sinceridade suficiente para que o desejo subisse, tocasse o céu, e se transformasse em asas. E em algum planeta distante, alguém que nunca ouviu falar de Gygy nem de Astrobryllus acordou naquela manhã com uma sensação estranha no peito  a sensação de que era hora de começar.

O futuro não espera por nós no horizonte. Ele nos espera dentro de cada escolha que ainda não fizemos  quieto, com as asas dobradas, reunindo a luz do presente para ter força suficiente para voar.

- Assim narrou Primolius em cima de uma cadeira.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0979





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