N° 0978 - A MARCHA DOS TAMBORES - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Cartas de Mayandeua para o Alter do Chão
No coração daquela terra santarena, onde o tempo dança ao ritmo das marés e o vento traz segredos sussurrados por folhas de buriti, a marcha começou não apenas dos pés, mas do peito, do sangue, da alma ancestral que pulsava em cada tambor.
O Congo havia despertado.
Os batuques ecoaram primeiro como murmúrio distante, quase tímido. Depois cresceram. Cresceram até se tornarem um rugido cadenciado que abraçava a paisagem inteira e o chão parecia respirar junto, levantando poeira dourada sob o sol escaldante como se a própria terra quisesse dançar.
Rei e Rainha caminhavam à frente. Suas coroas reluziam como estrelas que escolheram cair aqui, neste chão, entre este povo. Não eram enfeites. Eram símbolos vivos de uma realeza que nenhum papel assina tecida nas linhas invisíveis da memória coletiva, passada de mão em mão como brasa que recusa apagar.
Nos altos dos mocorongos, as princesas desfilavam em suas folias encantadas. Cada fita colorida carregava uma história. Cada pedra brilhante guardava um suspiro de quem a bordou dedos pacientes, noites longas, amor que não cabe em vitrine.
Murambiré: A palavra soava como mantra. Como âncora. Como senha entre os que sabem. Ela marcava cada passo, cada gesto, cada silêncio entre um tambor e outro. A rapaziada namorava às margens, olhares se cruzando entre risos baixos e promessas sussurradas porque festas assim têm esse poder: fazem a vida querer continuar.
E então o Congo voltou, agora em cores douradas, anunciando aliança renovada. A Dança do Alter flutuou sobre o chão, carregada por gestos multicoloridos e triângulos que cortavam o ar como relâmpagos de alegria pura. O militar extasiado soltou a voz. E aquela voz se misturou aos tambores como rio que encontra o mar sem resistência, sem fronteira.
A plateia estava abismada.
Como não estar? Aquilo não era apresentação. Era manifesta abastança deste chão. Era tributo à riqueza que brota da simplicidade e da resistência duas coisas que este povo conhece melhor do que ninguém.
No meio daquela explosão de cores, sons e emoções, percebia-se o peso da herança. Cada passo era homenagem. Cada toque de tambor, uma conversa com os que vieram antes e lutaram para manter viva aquela chama. O velho Alter sorria, orgulhoso, vendo sua essência ressoar nas gerações seguintes e nas seguintes das seguintes.
Quando o último som ecoou, restou o silêncio.
Mas não um silêncio vazio. Um silêncio cheio pesado de significado, quente de gratidão, perfumado ainda pelas fitas que o vento recusava largar.
A marcha dos tambores chegou ao fim. Mas sabíamos, todos sabíamos, que ela jamais termina de verdade.
Porque o Congo não dorme. Ele apenas espera. Espera o próximo amanhecer, o próximo tambor, o próximo coração disposto a lembrar quem é.
Murambiré, marcando.
Sempre marcando.
- Assim narrou Primolius ao ouvir o Murambiré!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0978


