... N° 0975 - O PEIXE-ABACAXI - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA

 


Antes que as primeiras areias de Mayandeua tocassem as águas do oceano, antes que o Caboclo de Maya moldasse os manguezais retorcidos com suas mãos de seiva, já existia ele: o Peixe-Abacaxi, criatura  nascida do encontro entre o fogo das profundezas e a espuma das estrelas.

Dizem os antigos que ele não foi criado  simplesmente emergiu quando o mar e a terra ainda discutiam onde um terminava e o outro começava. Naquele tempo primordial de fronteiras líquidas, quando tudo era nebuloso e os mundos se misturavam sem pudor, nasceu a necessidade de um sentinela. Alguém que pudesse viver simultaneamente em dois reinos. Alguém que não pertencesse totalmente a nenhum, mas fosse fiel a ambos.

E assim surgiu ele.

Seu corpo desafia toda lógica natural: escamas douradas dispostas em padrão geométrico perfeito como as faces de um abacaxi celestial, cada uma refletindo não a luz do dia, mas a luminescência própria das profundezas abissais. Seus olhos   são faróis vivos que nunca se apagam, lanternas cósmicas que perfuram a escuridão tanto da noite quanto das águas mais fundas. Eles não apenas veem; eles revelam. Iluminam verdades ocultas, desvendam mentiras, e guiam aqueles dignos através da névoa do tempo.

O Peixe-Abacaxi habita o cume da duna ancestral, aquele monte de areia que nasceu antes da própria ilha, quando Maya ainda era apenas um sonho sussurrado pelas ondas. Ali, suspenso entre o sólido e o líquido, entre o real e o mítico, ele mantém sua vigília eterna. Não come, não dorme, não envelhece. Apenas observa. Apenas espera.

O Peixe-Abacaxi não é um guardião que impede passagens  ele é o guardião que testa corações. Sua missão não é barrar viajantes, mas separar o trigo do joio, distinguir aqueles que buscam poder daqueles que carregam propósito. Cada criatura que alcança o topo da duna ancestral deve olhar nos seus olhos de farol e permitir ser vista. Completamente. Sem máscaras, sem mentiras, sem ilusões.

Naquele olhar profundo, o Peixe-Abacaxi lê não palavras, mas intenções. Não promessas, mas essências. Ele vê as cicatrizes invisíveis que cada alma carrega, os medos secretos escondidos em câmaras do coração, os sonhos verdadeiros que nem o próprio sonhador ousa confessar. E então, com sabedoria silenciosa acumulada ao longo de eras incontáveis, ele decide.

Os indignos são gentilmente desviados. Não destruídos  o Peixe-Abacaxi não conhece crueldade. Eles acordam na praia, sem memória de como chegaram ali, com apenas uma vaga sensação de que algo importante lhes escapou. Voltam para suas vidas comuns, nunca sabendo o quão perto estiveram do extraordinário.

Mas os dignos... ah, os dignos recebem muito mais que permissão para prosseguir.

Quando uma Iguana jovem  alcançou o cume em uma tarde, o Peixe-Abacaxi reconheceu nela algo raro: uma criatura rastejante que carregava asas invisíveis no coração. Ele viu o segredo de seiva pulsando em seu peito, leu a missão sagrada gravada em suas escamas, e compreendeu que ela era mais que mensageira  era ponte. Elo. Metamorfose viva.

E assim, ele lhe concedeu não apenas passagem, mas revelação.

Foi o Peixe-Abacaxi quem, com um único pulsar de seus olhos de farol, mostrou à jovem  Iguana a verdade que ela buscava: que sua jornada nunca fora sobre distância, mas sobre transformação. Que o altar de areia não esperava apenas o segredo de seiva, mas esperava por ela  para que se tornasse parte eterna do mito de Mayandeua.

Mas a Iguana não foi a primeira, nem será a última.

Ao longo dos séculos incontáveis, muitos alcançaram o cume da duna ancestral. O Peixe-Abacaxi testemunhou a passagem do Boto Cor-de-Rosa que carregava lágrimas de rio para curar as feridas do oceano. Viu a Garça Alba que trazia no bico sementes do primeiro mangue, plantando vida onde só havia morte. Observou o Caranguejo  atravessar seus domínios levando fragmentos da lua quebrada para reconstruir as marés.

Cada um foi testado. Cada um foi visto. Cada um foi julgado não por suas ações, mas por suas intenções mais profundas.

E quando as luas se alinham em noites especiais, quando o véu entre os mundos se torna translúcido como água de nascente, o Peixe-Abacaxi faz algo extraordinário: ele canta.

Não com voz, pois vozes são limitadas às criaturas do ar. Ele canta com luz. Seus olhos de farol pulsam em padrões complexos, projetando no céu noturno a história completa de Mayandeua  desde seu nascimento nas profundezas do tempo até os dias presentes. Cada pulso de luz é um capítulo. Cada variação de brilho, um personagem. Cada pausa no ritmo, um mistério ainda não desvendado.

Os pescadores antigos que conhecem os segredos de Maya aguardam essas noites. Apontam seus barcos para longe da costa e aguardam, flutuando no escuro, até que vejam o show de luzes começar no horizonte. E então, em silêncio reverente, assistem à narrativa luminosa do guardião, traduzindo seus significados em lendas que passarão de geração em geração.

Mas há um segredo que poucos conhecem, sussurrado apenas pelos Caboclos mais velhos nas noites sem lua: o Peixe-Abacaxi não é único. Ele é um de sete. Sete Guardiões dos Limiares espalhados pelos pontos sagrados de Mayandeua, cada um protegendo uma fronteira diferente entre mundos.

Há a Arraia de Cristal que patrulha a fronteira entre o visível e o invisível, escondida nas águas rasas onde a luz brinca com as sombras. Há o Polvo de Âmbar que guarda a passagem entre o passado e o presente, seus tentáculos abraçando as correntes do tempo. Há o Cavalo-Marinho de Bronze que vigia a ponte entre sonhos e vigília, dançando eternamente nas ondas do crepúsculo.

E há outros, cujos nomes são proibidos de pronunciar em voz alta, pois chamá-los é convidá-los  e nem todos estão preparados para o que esses convites podem trazer.

Mas entre todos os Sete Guardiões, o Peixe-Abacaxi permanece o mais conhecido, pois ele protege a fronteira mais crucial de todas: a passagem entre o que somos e o que podemos nos tornar. Entre a criatura comum e a lenda imortal. Entre a jornada física e a transmutação espiritual.

É por isso que ele habita o cume da duna ancestral, o ponto mais alto onde areia toca ar, onde o sólido desafia o vento, onde o impossível se torna cotidiano. Dali, com seus olhos eternamente acesos voltados para o horizonte infinito, ele cumpre seu propósito sem descanso, sem dúvida, sem fim.

E quando alguma criatura corajosa ou tola  às vezes a linha é tênue  alcança sua presença, ele oferece o mesmo presente que sempre ofereceu desde o primeiro amanhecer: a chance de olhar para dentro de si mesmo através de olhos que veem além das ilusões.

A chance de ser verdadeiramente visto.

A chance de se transformar.

Porque o Peixe-Abacaxi sabe o que muitos esquecem: os maiores tesouros de Mayandeua não são de ouro ou prata, não são poderes mágicos ou conhecimentos secretos. O maior tesouro é a coragem de atravessar portais internos, de deixar para trás o que éramos para abraçar o que podemos ser.

E ele guarda esse portal com devoção absoluta, paciente como as marés, eterno como as estrelas, inquebrantável como a própria ilha que protege.

Nas noites claras, se você olhar para as dunas de Mayandeua do ângulo certo, ainda pode ver dois pontos de luz brilhando no topo da montanha de areia. Não são estrelas caídas, nem fogueiras de pescadores, nem reflexos da lua.

São os olhos do Peixe-Abacaxi, faróis perpétuos que nunca se apagam, guiando os perdidos, testando os buscadores, guardando o limiar sagrado entre o mortal e o mítico.

E ele continuará ali, imóvel e eterno, até o dia em que o último grão de areia de Mayandeua retornar ao oceano de onde veio.

Até o dia em que não houver mais fronteiras a guardar.

Até o dia em que todos nós, finalmente, compreendermos que o maior guardião sempre esteve dentro de nossos próprios corações.

— Assim é guardado. Assim é revelado. Assim permanece o Peixe-Abacaxi, sentinela dos limiares, porteiro dos mistérios, farol eterno de Mayandeua.

— Assim narrou Primolius, que ouviu dos ventos, que ouviram das ondas, que ouviram do próprio guardião em noites de luz e silêncio.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0975

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