Nº 0972 - ATLÂNTICO PARAENSE - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
Foi a água que comandou. Desde os primórdios, ela dita as regras, traça os caminhos e escreve as histórias. No Atlântico Paraense, onde o mar encontra a vastidão do céu e os ventos carregam o perfume das fontes ocultas, a vida se desenrola em ciclos marcados pelas marés. É nesse espaço de mistério e beleza que os pescadores encontram seu destino.
As águas são mais do que um elemento físico são uma força cósmica, guiadas pela vazante das estrelas, pelo calor do sol e pela suavidade da lua. Esses astros, tão distantes e ao mesmo tempo tão presentes, conversam com o alto mar e criam uma solidão que é, paradoxalmente, plena de vida. Sol e lua não apenas iluminam o oceano: tocam a alma dos homens que nele navegam. Foi a água, com sua sabedoria silenciosa, quem decretou a geração dos pescadores aqueles que vivem entre o movimento sutil da pré-maré e a imobilidade contemplativa do isolamento no largo.
Quando a água chama o vento, algo se transforma. O Atlântico desperta para um estado encantado, onde os segredos dos baiacús e xaréus permanecem submersos, guardados em profundezas que resistem à nomeação. O vento, energia correspondente do oceano, dança com as ondas e traz consigo histórias antigas e rituais que o tempo não apagou. Nesse coração atlântico, a solidão não é vazia ela é habitada por seres invisíveis e por entidades que inscrevem suas narrativas no fundo do mar.
Os pescadores conhecem bem esses rituais. Observam as marés parindo trilhões de ovas e garantindo a continuidade da vida marinha. Veem as velas indecisas lutando contra os fluxos do vento, refletindo a incerteza de cada dia no mar. Em seus barcos, eles pilotam não apenas embarcações, mas sonhos e memórias. Cada remada, cada ajuste na vela, é um ato de fé no que está além do visível.
O isolamento do alto mar é um estado de espírito. É onde o homem se encontra a sós com seus pensamentos, cercado por horizontes infinitos e pelo som constante das ondas. Mas esse isolamento não é desesperador é contemplativo. No silêncio do mar, os segredos emergem, mesmo que permaneçam submersos na mente de quem os presencia. Os baiacús e xaréus, símbolos da riqueza marinha, carregam mistérios que talvez nunca sejam completamente revelados e talvez não precisem ser.
Enquanto o sol e a lua continuam sua dança eterna sobre as águas, os pescadores seguem seu chamado. Eles sabem que o Atlântico Paraense não é apenas um lugar geográfico: é um universo de possibilidades, um reino encantado onde vida e morte coexistem em equilíbrio. Cada maré, cada vento, cada peixe capturado ou devolvido ao mar é parte de uma história maior, escrita pelas mãos invisíveis da natureza.
No barco encantado, alguém pilota tendo o isolamento como companheiro. Esse alguém não é apenas um pescador é um guardião das águas, um contador de histórias, um ser humano conectado à vastidão do oceano e aos segredos que ele guarda. E, enquanto o Atlântico respira e pulsa com suas marés e seus ventos, ele seguirá respondendo ao chamado da água.
Porque foi ela quem comandou desde o início.
E assim será sempre! Disse Primolius.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0972
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