N° 0971 - A SEREIA RUTHYAS E ALGODOAL - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Era uma vez, nas terras distantes de Portugal, onde o sol se deita sobre campos de oliveiras e o mar beija castelos de pedra antiga, uma fada chamada Ruthyas. Ela não era uma fada comum; Ruthyas era a Guardiã, e sua vestimenta era tecida com a mais preciosa seda já vista, um tecido que não apenas brilhava, mas guardava em seus fios o calor do sol e o prateado da lua, como um abraço eterno do céu.
Ruthyas era uma exploradora do Sistema dos Encantados, uma rede invisível de portais mágicos que conectam os mundos de luz, guiada por um amor inabalável pela beleza e pelo desconhecido. Em suas viagens por esses caminhos de brilho, ela atravessou um portal azul-turquesa e encontrou-se em um lugar que parecia ter sido pintado por um deus sonhador, com pinceladas de puro afeto: uma ilha de areias tão brancas que pareciam flocos de carinho, cercada por águas de infinitas tonalidades que cantavam melodias suaves, e ventos que sussurravam canções de ninar, embalando a alma.
A fada apaixonou-se instantaneamente, com um amor profundo e avassalador. Ela percorreu cada trilha como se estivesse desvendando os segredos de um coração amado, dançou com as marés em um balé de pura alegria e, em meio às dunas, descobriu um lugar de paz absoluta, que batizou de Vale da Princesa. Ali, Ruthyas sentia-se em casa, aninhada em um abraço de pertencimento, mas ela sabia que os portais mágicos seguem o ritmo das estrelas e, em breve, se fechariam, obrigando-a a retornar ao seu reino de magias, deixando para trás um pedaço de seu coração.
Na véspera de sua partida, com o coração apertado de uma saudade que já doía, Ruthyas decidiu deixar um presente eterno para aquela terra que tanto amou.
— Esta ilha me deu sua beleza, e eu lhe darei a minha essência, o mais puro do meu ser declarou ela sob a luz da lua cheia, com a voz embargada de emoção.
Com dedos delicados, ela desfez uma pequena parte de sua veste de seda preciosa, como quem oferece um pedaço de si. Os fios, ao tocarem o solo fértil do Vale da Princesa, não murcharam; em vez disso, criaram raízes, como promessas de amor eterno. Ruthyas soprou sobre eles um encanto de proteção, um beijo mágico, e disse:
— Que a partir deste momento, esta planta represente a riqueza que não se compra, o brilho que não se apaga e a força que resiste ao tempo, um testemunho do meu amor por esta terra. Tu serás o Algodão-de-Seda.
Assim que as palavras foram ditas, a primeira planta brotou, majestosa, com folhas aveludadas que convidavam ao toque e flores que pareciam joias esculpidas pela própria natureza. Logo, o vento, o mar e as areias que amavam a fada com a mesma intensidade tornaram-se seus mensageiros. O vento colhia as sementes aladas, leves como suspiros de amor; o mar as levava para as margens mais distantes, espalhando a paixão; e a areia as aninhava com carinho, como um berço de ternura.
Em pouco tempo, a ilha inteira floresceu, transbordando de vida e beleza. O Algodão-de-Seda espalhou-se por todos os cantos, tornando-se o símbolo daquela terra abençoada. Dizem os antigos pescadores que, durante a noite, a planta brilha com um luar próprio, um farol de esperança, guiando aqueles que se perdem na escuridão, como um abraço luminoso.
A primeira planta, porém aquela que nasceu diretamente das vestes de Ruthyas, impregnada de sua alma permanece escondida e protegida no coração do Vale da Princesa. Ela é guardada por encantos que só permitem que olhos puros a vejam, mantendo viva a conexão eterna entre a fada e seu refúgio amado, um elo de amor que o tempo não pode apagar.
Com o passar das gerações, os navegantes e moradores, maravilhados com a abundância daquela planta macia e brilhante que parecia algodão, mas tinha o toque suave da seda, começaram a chamar aquele santuário de Ilha de Algodoal, um nome que ecoa o amor e a magia.
E até hoje, quando o vento sopra mais forte nas dunas, os moradores dizem ser Ruthyas, voltando em espírito através dos portais, para conferir se sua preciosa seda continua a florescer em cada grão de areia da ilha que roubou seu coração e o preencheu de um amor sem fim.
- Assim narrou Primolius!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0971


