Nº 0970 - UMA HISTÓRIA COM MAYA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Na Ilha de Mayandeua, a noite voltou sem estrelas.
Mas desta vez o cheiro não era de plástico.
Era de cinza.
Alba pousou no alto do mesmo mangue. As raízes estavam limpas. A água, transparente. Os peixes haviam voltado. E ainda assim a garça não encontrou paz. Havia algo diferente na escuridão um silêncio espesso demais, como se a ilha estivesse prendendo a respiração.
Araneo sentiu primeiro. Seus fios não vibravam. Estavam rígidos. Paralisados. Como se o ar tivesse esquecido como se mover.
Gatus chegou pela Trilha Encantada e parou no meio do caminho. Seus olhos, que liam sinais antigos, piscaram desorientados. Os sinais estavam apagados. As marcas nas pedras, em branco. Os galhos que sempre apontavam direção não apontavam mais nada.
— A memória da ilha está sumindo — ele disse para ninguém.
Jaca dos Lagos emergiu das águas e trouxe a notícia que nenhum deles queria ouvir.
Maya havia partido.
Não por causa do lixo. Os humanos, surpreendentemente, haviam escolhido bem. Haviam cuidado. Haviam respeitado. O aviso fora cumprido do lado certo.
Maya partira por outro motivo.
Partira para enfrentar aquilo que nenhuma magia de ilha consegue curar sozinha o esquecimento deliberado. Em algum lugar além do horizonte, havia homens que sabiam da existência de Mayandeua, sabiam de sua força, e planejavam capturá-la. Não com lixo. Com documentos. Com leis reescritas. Com mapas redesenhados que apagavam o nome da ilha e a transformavam em território sem dono.
O perigo novo não tinha cheiro de plástico.
Tinha cheiro de tinta seca.
A Bruxa Camaleoa mudou de cor três vezes seguidas verde, cinza, preto e as três eram cores de medo. Ela abriu um livro que ninguém havia visto antes. As páginas eram feitas de casca de mangue prensada. As palavras, escritas em língua de maré.
— Maya foi ao Conselho das Águas leu a Bruxa em voz baixa. Ela vai testemunhar por todas as ilhas esquecidas. Mas precisa de prova. Precisa de algo que os homens dos documentos não possam apagar.
Esbório, o urso, ficou quieto por um longo tempo. Depois disse, com a calma de quem carrega coisas pesadas há muito:
— Uma história não pode ser apagada se alguém a estiver contando.
Todos olharam para ele.
— Precisamos de uma voz humana completou. A magia da ilha protege a natureza. Mas a natureza, desta vez, precisa que um humano a proteja de volta.
Araneo começou a tecer. Não para conter lixo. Para construir uma rede de chamado fios tão finos que passavam entre as ondas, subiam pelo vento, entravam pelas janelas abertas das casas da ilha. Uma teia invisível que levava uma única sensação: lembra de mim.
E então aconteceu o que ninguém havia previsto.
Uma criança acordou no meio da noite. Tinha sete anos. Havia nascido na ilha, havia aprendido a nadar antes de andar, havia crescido ouvindo o nome de Mayandeua dito com cuidado, como se o nome em si fosse vivo.
Ela saiu de casa descalça. Seguiu o fio de Araneo sem saber que o seguia. Caminhou pela Trilha Encantada guiada por Gatus, que andava ao lado dela feito sombra. Chegou à clareira sagrada.
Ali estavam todos os guardiões.
A criança não teve medo. Sentou no chão e perguntou:
— Vocês viram Maya?
— Ela foi lutar por vocês respondeu Alba, pousando em seu ombro.
— Então eu também quero ir.
A Bruxa Camaleoa inclinou a cabeça. Estudou a menina. Mudou de cor uma única vez dourado, a cor que ela nunca havia usado antes, a cor que aparecia apenas no livro de casca de mangue, ao lado de uma palavra que significava escolha verdadeira.
— Você não pode ir onde ela foi disse a Bruxa. Mas pode fazer algo que ela não consegue fazer de lá.
E entregou à criança um caco de concha e um pedaço de carvão.
— Escreva o nome da ilha. Em todo lugar onde puder. Em pedra, em areia, em papel, em voz. Cada vez que alguém pronunciar Maiandeua com intenção, Maya ganha mais força no Conselho.
A menina olhou para o caco de concha. Olhou para o carvão. Olhou para os guardiões reunidos ao redor dela na escuridão sem estrelas.
Então fez algo que nenhuma magia havia previsto.
Ela cantou o nome.
Não em voz alta. Em voz de raiz antiga como Maya, mas humana, imperfeita, trêmula e real. E essa imperfeição foi exatamente o que atravessou o Conselho das Águas como uma flecha de luz, porque os homens dos documentos podiam apagar mapas, podiam reescrever leis, mas não tinham poder nenhum sobre a voz de uma criança cantando o nome de um lugar que ela amava.
No Conselho das Águas, Maya sorriu pela primeira vez desde que partira.
E o Conselho, que era antigo e sério e havia esquecido como se surpreender, ficou em silêncio por um longo momento diante daquela frequência pequena e impossível.
Depois votou.
A ilha ficou.
Maya voltou antes do amanhecer. Não anunciou. Não brilhou. Sentou-se ao lado da criança adormecida na clareira e ficou olhando para ela com olhos de água profunda mas agora havia algo diferente neles. Uma gratidão que a magia não consegue fabricar. Que só nasce quando alguém que podia ter ficado quieto decide usar a própria voz.
Quando o sol nasceu, a criança acordou sozinha. Não havia ninguém na clareira.
Mas no chão, ao redor dela, Araneo havia tecido uma teia circular perfeita. E no centro da teia, em fios de orvalho que logo iriam secar, estava escrito o único recado que Maya deixou:
Você também é guardiã.
Desde aquela manhã, dizem que a ilha tem duas forças. A força antiga, que vem de baixo da terra. E uma força nova, que vem de dentro das pessoas mais frágil, mais barulhenta, mais capaz de mudar o que os mapas dizem.
E quando uma criança aprende o nome de Maiandeua pela primeira vez, os fios de Araneo vibram suave, Alba inclina a cabeça no mangue, e Maya onde quer que esteja respira um pouco mais fundo.
Como se mais uma voz tivesse chegado do lado certo da vida.
- Assim narrou Primolius!
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0970


