... N° 0960 - O PALÁCIO DOS BRINQUEDOS INFINITOS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA



No fundo de uma casa antiga de Algodoal , havia um quarto empoeirado. A luz entrava pelas frestas das cortinas como um sopro cansado. As prateleiras ainda guardavam bonecas, carrinhos e soldadinhos, todos imóveis, mas não inertes. Havia um desejo secreto entre eles  não de serem lembrados, mas de serem esquecidos.

Os brinquedos estavam cansados de esperar. As mãos das crianças, antes cheias de vida nas férias, haviam se tornado distantes. Agora, cada toque parecia um lembrete de que o tempo deles passava, de que logo seriam substituídos por telas, sons eletrônicos, celulares e luzes artificiais. E então, num acordo silencioso, decidiram partir.

Falaram, em sussurros de pó, sobre um lugar distante: o Palácio dos Brinquedos Infinitos. Um reino que existia além do tempo, onde brinquedos nunca se quebravam, nunca eram esquecidos, nunca esperavam por amor humano. Lá, o vento brincava com as bonecas, os carrinhos corriam sobre pistas de nuvem e os ursos de pelúcia dormiam em camas de algodão celestial.

O plano começou a tomar forma numa noite em que a lua parecia vigiar o quarto. Os brinquedos decidiram que, para chegar ao palácio, precisavam primeiro ser esquecidos. Quanto mais a criança os deixasse de lado, mais leves se tornariam, até que pudessem desaparecer, um por um, na poeira do esquecimento.

As bonecas de porcelana foram as primeiras a compreender o ritual. Deixaram de sorrir quando a criança olhava. Ficaram imóveis, sem brilho nos olhos. Os carrinhos pararam de rodar, mesmo quando empurrados. O ursinho de pelúcia, o mais antigo e mais amado, escondeu-se no fundo do baú, temendo o olhar que poderia prendê-lo de novo ao mundo dos humanos.

Aos poucos, o quarto se tornou mais silencioso. A criança, sentindo algo estranho, tentava brincar, mas os brinquedos pareciam diferentes. Frágeis, frios, distantes. O coração infantil, sem entender o que acontecia, começou a se afastar também. Até que um dia, simplesmente, não voltou mais.

E foi nessa ausência que o milagre aconteceu. As bonecas se levantaram, os carrinhos giraram as rodas, o ursinho esticou seus braços gastos. Um brilho  surgiu entre as frestas da janela, e uma porta se abriu no ar  uma passagem feita de poeira e memória. Um por um, os brinquedos atravessaram a luz.

Do outro lado, havia o Palácio dos Brinquedos Infinitos. Salões de vidro colorido, rios de confete, jardins onde piões dançavam.  Lá, não existia o medo do esquecimento, porque ninguém precisava ser lembrado. O ursinho,  olhou para trás uma última vez. O quarto da criança se apagava, como uma lembrança antiga. Ele sorriu, sabendo que, no fundo, cada brinquedo que partia deixava um traço invisível no coração das crianças. Não um vazio, mas uma saudade doce  a semente da imaginação.

E assim, o quarto ficou vazio. Mas em algum lugar entre o sonho e a poeira, o som leve de uma risada ecoava, vinda do Palácio dos Brinquedos Infinitos, onde a eternidade tem cheiro de infância e liberdade.

- Dizem que eles tiveram acesso aos Portais de Maya.... 


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0960


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