Nº 0968 - A VIAGEM AO DESCONHECIDO - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA




No interior do bar, um refúgio perdido entre o cais e o mar aberto, tudo parecia estar suspenso no tempo. A penumbra dominava o ambiente, suavemente iluminado por lâmpadas antigas de vidro fosco. No ar pairava o cheiro familiar de tabaco, madeira envelhecida e bebidas, enquanto as notas suaves de uma música antiga, tocada por um rádio, ecoavam pelas paredes cobertas de memórias.

No centro da atenção estava a mesa de sinuca, onde jogadores se revezavam entre tacadas precisas e comentários jocosos. Ao fundo, duas figuras se destacavam no balcão: dois amigos, veteranos das noites daquele bar, que pareciam imersos em uma conversa íntima, envoltos pela fumaça dos cigarros e pelo som abafado das conversas ao redor. Sobre o balcão, garrafas vazias testemunhavam as incontáveis histórias já contadas, enquanto um único copo cheio aguardava pacientemente por alguém que o brindasse à próxima aventura.

Lá fora, no ancoradouro, um velho barco balançava suavemente ao ritmo da brisa noturna. As luzes  que o adornavam contrastavam com a serenidade do mar e traziam ao ambiente uma sensação ambígua de nostalgia e mistério. Quem observasse aquele barco poderia pensar que ele não era apenas um meio de transporte, mas uma ponte entre realidades.

Dentro do barco, uma cena de camaradagem se desenrolava. Redes de dormir pendiam do teto, e o cheiro salgado da maré baixa se misturava ao aroma de café fresco. Nas paredes, fotografias desbotadas mostravam paisagens impossíveis: cidades flutuantes, auroras de cores nunca vistas, criaturas marinhas que desafiavam qualquer explicação. Os navegantes raramente falavam sobre elas, mas seus olhos brilhavam com segredos não compartilhados.

— Você já viu o céu roxo?  Perguntou um dos marinheiros, apontando para uma das fotos mais intrigantes.

— Vi uma vez. Nunca mais fui o mesmo,  respondeu outro, com um misto de reverência e melancolia.

A atmosfera era de contraste: enquanto dentro do bar havia a tranquilidade e o calor humano, do lado de fora, a vastidão do oceano sussurrava sobre fronteiras invisíveis entre mundos. Entre o presente e o desconhecido, havia um rastro invisível que unia todos os que ali estavam: a eterna busca por transcender os limites do ordinário.

Quando a noite avançava e o relógio se aproximava da meia-noite, um novo visitante entrou no bar. Ele caminhava com passos firmes, ainda que lentos, como se carregasse o peso de múltiplas existências. Era um velho navegante, cuja presença chamou imediatamente a atenção de todos. Suas roupas pareciam feitas de um tecido que mudava sutilmente de cor conforme a luz, e seus olhos, profundos e atentos, refletiam constelações que não pertenciam ao céu conhecido.

Ao se aproximar do balcão, o homem tirou de sua mochila um objeto estranho: uma esfera de vidro contendo o que parecia ser água do mar, mas que emitia uma luminescência azulada pulsante. A conversa ao redor cessou. Até o som do rádio parecia diminuir, enquanto todos voltavam sua atenção para aquele visitante enigmático.

— Esta noite, a passagem se abrirá,  disse o navegante, com a voz rouca, mas firme. Como acontece a cada lua cheia em anos que terminam em sete. Somente aqueles que forem corajosos poderão atravessar.

A tensão no ar era palpável. Os dois amigos no balcão trocaram um olhar cúmplice. Um deles, mais jovem e de espírito aventureiro, sentiu um chamado irresistível. Algo dentro dele despertou, como se aquela fosse a oportunidade que ele sempre esperara sem saber.

— E para onde essa passagem leva? Perguntou o jovem, aproximando-se do velho navegante.

O velho sorriu, como se soubesse que a pergunta viria. Ele começou a narrar sobre um mundo paralelo, onde o mar tinha consciência própria, onde as tempestades cantavam melodias antigas e onde o tempo fluía de maneira diferente. Alguns que atravessaram voltaram transformados, outros nunca retornaram, mas todos encontraram algo que buscavam sem saber que procuravam.

— Não é um lugar melhor ou pior , explicou o navegante, girando a esfera entre os dedos. 

— É simplesmente outro. Lá, vocês verão a essência das coisas, não apenas sua aparência. O mar revela verdades que este mundo esconde.

Conforme a conversa se desenrolava, o ambiente do bar mudou. O mistério trouxe uma nova energia ao lugar. As histórias de sempre deram lugar à excitação por uma travessia impossível. Os olhares furtivos agora eram de curiosidade e um temor reverente.

— À meia-noite, zarparemos,  anunciou o navegante, erguendo seu copo.

 — O portal se abrirá no ponto onde as correntes se encontram. Que cada um aqui decida se quer cruzar o limiar.

Os dois amigos não hesitaram. Sentiam que aquela era a oportunidade de experimentar algo além da realidade comum, de transformar suas noites regadas a histórias em uma verdadeira transcendência. Com um brinde silencioso, selaram seu pacto de companheirismo e coragem.

Outros no bar também se levantaram. Uma mulher de cabelos prateados que sempre bebia sozinha num canto. Um pescador que há anos falava em vozes que ouvia nas marés. Um músico ambulante que carregava um violão decorado com símbolos estranhos. Todos sentiram o chamado.

Na hora marcada, enquanto a lua cheia brilhava em seu auge, o barco balançava suavemente, pronto para zarpar. As luzes  agora pulsavam em sincronia com a esfera luminosa que o navegante segurava. Os escolhidos, com os olhos cheios de expectativa e uma pontada de medo, embarcaram.

Quando o barco alcançou o ponto indicado, algo extraordinário aconteceu. A água ao redor começou a brilhar com a mesma luminescência azulada, formando um círculo perfeito. O ar ficou denso, carregado de eletricidade estática. E então, como uma cortina sendo aberta, uma fenda vertical se manifestou no próprio ar, revelando do outro lado um oceano sob um céu impossível, tingido de violeta e dourado.

— É agora, sussurrou o navegante.

O barco avançou lentamente em direção à fenda. Por um breve instante, os tripulantes sentiram como se estivessem sendo desmontados e remontados, átomo por átomo. Houve um clarão cegante, um som como de vários sinos de cristal tocando simultaneamente.

E então, silêncio.

Do outro lado, o barco flutuava em águas que refletiam estrelas desconhecidas. O céu era uma tapeçaria de cores que não tinham nome. Ao longe, formações rochosas flutuavam no ar, desafiando a gravidade. Criaturas luminosas nadavam nas profundezas, deixando rastros de luz fosforescente.

— Bem-vindos,  disse o navegante, apontando para o horizonte onde uma cidade de torres cristalinas emergia da névoa. 

— Ao que sempre esteve aqui, esperando por aqueles com coragem de ver.

Enquanto isso, no bar agora vazio, o relógio marcava meia-noite e um minuto. O rádio  continuava tocando sua música antiga. Na mesa, copos ainda fumegantes guardavam o calor dos lábios que os tocaram. E na janela, alguém que ficou observava o mar, onde por um breve momento havia visto luzes impossíveis dançando sobre as ondas.

A passagem havia se fechado. Mas aqueles que cruzaram o limiar agora navegavam em águas onde cada onda carregava memórias de outros mundos, onde o horizonte prometia não um destino, mas infinitas possibilidades de existir.

E assim, envoltos em mistério e camaradagem, aqueles navegantes seguiram rumo ao desconhecido, em busca não de riquezas, mas de compreensão. Do outro lado do portal, entre águas conscientes e céus impossíveis, eles descobririam que a maior jornada não é aquela que nos leva a novos lugares, mas aquela que nos transforma em quem sempre fomos destinados a ser.

- Aquela cidade era da Princesa....

- E naquela noite um dos portais de Maya  foi descoberto por aquelas pessoas.

- Assim narrou Primolius.


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0968


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