Nº 0967 - MIL HISTÓRIAS PARA CONTAR - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA
(Direto de Mayandeua)
No coração do Norte, onde a terra respira histórias e o tempo parece desacelerar, há sempre um capoeirão no chão. É ali, entre galhos caídos e folhas secas, que as narrativas brotam como raízes profundas, entrelaçando passado e presente. No além, os matos confinam o rio, escondendo segredos que só os mais velhos conhecem. E lá está ele, o primo "sumano", figura mitológica ou talvez apenas uma lembrança distante, pairando sobre as conversas à sombra dos cajueiros.
Os bocadinhos de léguas e léguas se estendem como um tapete verde infinito, marcados por descrições detalhadas de roçados. Os pés de canela crescem no caminho, como sentinelas silenciosas que testemunham o vaivém da vida simples. Às vezes, um dinheiro aparece raro, mas suficiente para acender esperanças. A capoeira é rumorosa, cheia de suor e trabalho braçal, enquanto o caboclo Raimundo maneja o terçado com a perícia de quem aprendeu na escola da terra.
Os meninos, descalços e irrequietos, correm pelos terreiros, evitando a ducha que a mãe insiste em dar. Dinheiro difícil! As estradas estão despovoadas, mas os cajueiros florescem em profusão, pintando o cenário de amarelo e vermelho. Mulheres enfrentam partos sozinhas, longe de hospitais, enquanto os bichinhos santos, bezerrinhos, porquinhos, galinhas e patos, descansam à hora do meio-dia, protegidos pela bênção do sol forte.
Julho chega trazendo compromissos nas lombadas, onde a autopista ainda é mais sonho do que realidade. Lampiões abrasados iluminam as noites, enquanto igrejas acanhadas abrigam rezas e promessas. Os cemitérios sem cercos são testemunhas mudas das vidas que se foram, e o terçado continua trabalhando, cortando lenha e limpando caminhos. Farmácias improvisadas nos quintais oferecem curas caseiras para males antigos, enquanto crianças brincam de esconde-esconde entre mandiocas plantadas às margens dos rios.
As pontes parecem feitas de quiabo, frágeis e balançantes, mas resistentes o suficiente para suportar o peso dos dias. Tabernas abarrotadas de gente fervilham de histórias e cusparadas nos cantos, onde homens falam alto sobre peixes grandes e tempos difíceis. Nos lugarejos do Norte, os rios são generosos, repletos de traíras e tamuatás. Às vezes, um tucunaré surge como um tesouro inesperado, garantindo o almoço da família.
Há paz por estas bandas, mesmo quando o céu anuncia chuva para o dia seguinte. E os cajueiros? Ah, os cajueiros estão todos em flor, como se quisessem celebrar a vida que pulsa mesmo nas adversidades. Capoeirão... O chão continua firme, guardando mil histórias para contar. Entre cajueiros floridos e rios , a simplicidade da vida rural segue seu curso, tecendo memórias que resistem ao tempo e ao esquecimento.
- Assim narrou Primolius.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0967


