Nº 0966 - REGATÃO DOS SONHOS - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA




Desliza pelo espelho d'água a embarcação nômade, traçando curvas com obstinação, transportando em seu ventre os ecos do mundo exterior. Aos moradores das margens fluviais, representa muito além de uma simples estrutura flutuante,  materializa um laço com o desconhecido, o portal das novidades, a garantia de permanência. Seu advento é esperado com fervor, configurando-se como artéria essencial que interliga os remotos habitantes à amplitude do universo.

O curso d'água, em sua magnitude de fluxos e quietude, preserva mistérios revelados apenas àqueles que empunham os remos. Esses navegadores das correntes são exploradores natos, deslocando-se com maestria quase intuitiva pelos caminhos líquidos serpenteantes. A embarcação torna-se prolongamento de sua própria existência, harmonizando-se com o fluir aquático numa coreografia de potência e exatidão. A cada impulso dos remos, as correntes murmuram melodias, reverberando as memórias de incontáveis gerações que habitaram estas paragens.

Quando a embarcação se desenha no horizonte, sua aparição revoluciona o ordinário. O cadenciado som da superfície sendo explorada anunciando o iminente encontro. As palmas enrijecidas pelo labor interrompem seus afazeres para contemplar a linha fluvial, enquanto os mais jovens precipitam-se às beiras com semblantes radiantes de antecipação através de outras embarcações menores.

A canoa configura-se como acontecimento móvel, rompendo a uniformidade dos dias. Transporta mantimentos recém-colhidos, instrumentos indispensáveis e correspondências que abrigam declarações de afeto e nostalgia. Porém, sua carga transcende o material,  tecidos vibrantes que anunciam júbilo, e as expressões acolhedoras dos navegantes que se convertem em portadores de calor humano tão valioso quanto qualquer mercadoria.

Sob a incandescência solar, a estrutura da embarcação espelha luminosidade, compondo um espetáculo cromático que parece celebrar seu comparecimento. Para os mais experientes, simboliza perspectiva e provisão; para os pequenos, constitui uma expedição, um instante de fascinação que se reitera sem jamais dissipar seu magnetismo.

Quando as nuvens descarregam suas águas, o panorama se transforma, porém o significado da canoa persiste inalterado. Resguardada por cobertura artesanal, atravessa as correntes opacas. Os capitães, envoltos em mantos e chapelaria desgastada, prosseguem em sua labuta com resolução que confronta as intempéries.

A precipitação inaugura frescor e regeneração. Cada fragmento  que tomba parece purificar mais que a superfície do barco e as ribanceiras,  lava igualmente as aspirações, preparando o solo para narrativas vindouras. A embarcação converte-se em santuário móvel, onde as provisões encontram proteção e o propósito de sua incumbência jamais esmorece.

Na ribanceira, os habitantes aguardam sob ramagens improvisadas como proteção, observando o deslocamento pausado e persistente da grande canoa. Ao finalmente ancorar, o rumor pluvial mescla-se ao contentamento e às exclamações que festejam a comunhão em meio à adversidade.

Cada expedição da embarcação constitui um episódio de uma crônica compartilhada. Cada movimento propulsor representa também um verso inscrito na tradição das margens, entrelaçado pela expectativa e pela reciprocidade. O desembarque transcende o simples ato de atracar, configura-se como celebração repleta de simbolismo.

Os ribeirinhos retornam às suas moradas carregando não somente suprimentos, mas um sentimento restaurado de pertencimento. As palavras permutadas junto ao curso d'água ganham pulsação nos domicílios, nos instantes de contemplação ao redor da iluminação a querosene.

A canoa ultrapassa a condição de madeira esculpida para navegar. Encarna a essência vívida do rio, a manifestação de tenacidade que aproxima pessoas e territórios afastados. Seu corpo preserva as insígnias temporais,  sulcos, fendas e pigmentações que relatam cada travessia, cada tormenta enfrentada. E, não obstante, persevera avante, como o próprio rio que a ampara.

Entre precipitações e claridade, turbulências e serenidade, a canoa itinerante supera a mera classificação de embarcação. Personifica um emblema de perspectiva, uma conexão que perpassa gerações e margens. Cada pulsação do motor firma uma promessa de perpetuidade, cada chegada rememora que, apesar das tormentas da existência, sempre há algo que vincula e estimula.

Enquanto o rio prossegue seu curso eterno, a canoa mantém sua odisseia  uma narrativa sem desfecho, que diariamente adquire novas tonalidades, ecos e interpretações.

- Assim narrou Primolius nas águas do Marajó!


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0966

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