Nº 0965 - CIDADE COLIBRIANA - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
O vento matinal ainda acariciava minha face quando meus olhos capturam aquela visão encantadora: um beija-flor, joia esmeralda suspensa no ar, executando sua dança hipnótica diante da helicônia flamejante que brota no jardim. Belém despertava com sua moleza característica, o burburinho fervilhante do Ver-o-Peso ainda era apenas um murmúrio longínquo, abafado pela copa espessa das mangueiras seculares que emolduram esta rua como guardiãs ancestrais. Pensei, sorrindo sozinho, que aquela criaturinha alada personificava perfeitamente esta cidade: diminuta em tamanho, vibrante em essência, e absolutamente devotada à vida que pulsa feroz em cada esquina, em cada beco, em cada margem lamacenta.
Belém, a metrópole das mangueiras opulentas e dos casarões coloniais que parecem sonhar acordados sob o sol implacável da linha do Equador. Cidade construída de aromas penetrantes desde o açaí espesso batido no momento até o cheiro inconfundível do peixe crepitando no óleo quente um verdadeiro banquete olfativo que te embosca quando menos espera, invadindo narinas desprevenidas. A umidade se cola na pele como um abraço sufocante mas afetuoso, um casulo úmido que nos envolve completamente e nos derrete por dentro, transformando-nos em versões mais lentas e contemplativas de nós mesmos. Mas é justamente nessa aparente desordem tropical que habita a verdadeira beleza, nessa mistura caótica de cores gritantes, sons sobrepostos e sabores intensos que te envolvem como o abraço apertado de uma avó saudosa.
Enquanto o colibri, em sua incansável missão, extraía o néctar doce daquela flor vermelha e amarela, observei as ruas gradualmente ganharem vida. O vendedor ambulante de açaí anunciava em alto e bom som a chegada do fruto roxo da floresta amazônica. O tapioqueiro preparava sua especialidade na chapa de metal aquecida, o perfume adocicado da goma mesclada com coco flutuando no ar denso como um convite impossível de recusar. E, distante mas presente, o ronco grave do motor de um barco regional abarrotado de gente e de sonhos, cortando as águas turvas e barrentas do rio Guamá.
Belém, a terra dos anjos nascidos nas margens do Guajará, como romantizavam os poetas de antigamente. Mas para mim, para meus olhos e meu coração, são os periquitos e os sabiás melodiosos que verdadeiramente roubam o espetáculo. Em revoada barulhenta, tomam o céu de assalto, pintando-o com pinceladas vibrantes de amarelo-limão e verde folha. Seus cantos estrídulos e melodiosos são a trilha sonora oficial desta cidade, um concerto matutino que te desperta não apenas do sono, mas para a própria vida.
Recordei-me das palavras sábias de um pescador envelhecido, sentado à margem do rio, costurando pacientemente os rasgos de sua rede: "Belém é tinhosa, meu fio. Já presenciou de tudo, já padeceu de tudo, mas jamais perdeu sua graça, sua chama." E é a mais pura verdade. Belém resiste, obstinadamente bela, a despeito de todas as adversidades, de todos os golpes do tempo e dos homens. Ela se recria a cada amanhecer, se veste de verdejante e de flores tropicais, se agarra com unhas e dentes à sua história centenária e segue teimosamente em frente, sempre em frente.
O colibri finalmente se despediu, zunindo velozmente em direção a outra flor promissora. E eu permaneci ali, sentindo simultaneamente o peso úmido do ar equatorial nos ombros e a leveza inexplicável da alma. Mas hoje, neste dia específico, algo pulsava diferente dentro de mim. Meu pensamento alçou voo para além dos limites urbanos da cidade, para as ilhas distantes. Para Mayandeua misteriosa, para Algodoal serena. Evoquei a memória daquele céu das vilas litorâneas não um simples teto atmosférico, mas um verdadeiro oceano invertido, límpido e insondavelmente profundo, onde as estrelas não apenas cintilam mecanicamente, mas respiram, pulsam, vivem. Um céu que dilata a alma humana até seus limites.
Recordei a paz profunda que é ouvir o silêncio verdadeiro, aquele interrompido apenas pelo farfalhar suave dos coqueirais balançando na brisa marinha e pelo murmúrio constante e eterno do oceano, uma cantiga de ninar composta pela própria natureza. Lembrei da simplicidade genuína das ruas de areia fofa e branca, da vida comunitária que segue obedientemente o ritmo ancestral das marés, não a tirania impiedosa do relógio. Da comunidade acolhedora onde o tempo deixa de ser cronômetro para se tornar um rio largo, calmo e generoso.
E então, naquele instante de epifania, compreendi com clareza cristalina: não somos meros espectadores passivos da história multissecular de Belém, somos protagonistas ativos dela, somos co-autores deste livro vivo. Somos as folhas verdes das mangueiras gigantescas, as gotas de chuva tropical que lavam as calçadas de pedra portuguesa, os raios de sol equatorial que aquecem os corações endurecidos. Somos o açaí espesso que alimenta simultaneamente corpo faminto e alma cansada, a tapioca quentinha que adoça as manhãs difíceis. Somos o murmúrio dos ventos úmidos que sussurram segredos esquecidos nos ouvidos dos sobrados coloniais abandonados.
Porém, há uma parcela crescente de mim uma parte que não posso mais ignorar que agora anseia fervorosamente por um céu mais generosamente estrelado, por uma paz profunda que a cidade, em toda sua beleza febril e caótica, já não consegue mais me oferecer. Belém me moldou, me esculpiu, me deu suas cores vibrantes e seus sabores intensos, sua resistência tinhosa contra todas as adversidades. Ela será eternamente a raiz principal, o caldo cultural denso que me nutre desde a infância.
No entanto, é para lá, para a simplicidade arenosa e despojada de Algodoal, para o abraço acolhedor e tranquilo de Mayandeua, que dirijo agora meu coração cansado de asfalto. É para aquela casinha modesta e perfeita, de frente para o mangue retorcido e de costas para o oceano infinito, que vou finalmente estabelecer minha morada definitiva. Para trocar conscientemente o ronco incômodo dos motores urbanos pelo canto noturno dos grilos e pelo rugido majestoso das ondas quebrando. Para viver dias inteiros pintados com o azul turquesa do mar e o verde vibrante da restinga intocada, e noites abençoadas iluminadas por uma lua que se transforma em farol celestial para as andanças sem destino certo da minha alma inquieta.
Belém, mais que uma simples cidade cercada de rios e florestas, é um estado de espírito permanente que carrego comigo para onde quer que eu vá. Um lugar mágico onde a realidade concreta e a fantasia impossível se entrelaçam sem constrangimento, onde o passado distante e o presente imediato se abraçam como velhos amigos reencontrados. Belém do Pará, Belém do Brasil, Belém do mundo inteiro: um coração gigante que bate forte no ritmo sincopado e indomável da Amazônia.
E enquanto os beija-flores multicoloridos continuam sua dança aérea perpétua sobre os quintais floridos da cidade que me viu nascer, minha própria dança agora será executada sob o céu verdadeiramente infinito da ilha distante, levando na bagagem invisível todo o amor profundo e inesgotável por esta cidade que jamais deixará de ser minha, mesmo quando eu for, finalmente e irrevogavelmente, de outro lugar geograficamente distante.
Porque Belém não é meramente onde se vive fisicamente é aquilo que se carrega eternamente dentro de si, um rio caudaloso que corre no sangue e nas veias, mesmo quando se escolhe conscientemente desaguar no mar aberto, livre e infinito.
— Escrito por alguém que parte mas nunca se despede, que vai embora mas permanece, que troca de endereço mas não de coração.
- Assim narrou Primolius.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0965


