Nº 0963 - A VIAGEM DA IGUANA DE MAYANDEUA - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICO DE MAYANDEUA

 


A Iguana de Mayandeua não se move como os outros répteis; ela serpenteia através das rachaduras invisíveis do tempo, deixando para trás um rastro fosforescente que se apaga ao toque do vento. Suas escamas não são simples proteção, são espelhos vivos de um verde-jade profundo, pequenos fragmentos cristalizados de luz ancestral que conseguem guardar o orvalho do mangue mesmo quando atravessam o verão branco das areias escaldantes de Maya. Foi o próprio Caboclo de Maya, guardião dos segredos líquidos da ilha, quem lhe confiou a missão mais delicada: carregar consigo um segredo feito de seiva pura até alcançar o altar perdido nas dunas ancestrais, onde céu e areia trocam de lugar ao entardecer.

A jornada começou sob o manto protetor dos mangues, mas logo ela precisou enfrentar o deserto implacável. O Sol, invejoso daquela criatura que ousava brilhar em seus domínios, lançou raios como lanças tentando roubar-lhe toda a cor, querendo transformá-la em cinza e pó. Mas a Iguana, que aprendeu com os camaleões a arte suprema da camuflagem, mergulhou no cemitério de conchas da praia e absorveu o brilho de cada uma delas, transformando seu corpo inteiro em prata líquida uma criatura movediça que enganava até mesmo o olhar afiado das corujas noturnas de Maya.

Seguiu adiante com determinação silenciosa. Cruzou os caminhos traiçoeiros deixados pelas lendárias Feiticeiras, aquelas criaturas que surgem das matas para enganar viajantes desavisados. Desviou das armadilhas ocultas na areia quente e dos espelhos de miragem que prometiam água onde só havia sal. Para seus olhos reptilianos treinados, cada minúsculo grão de areia era na verdade um degrau secreto esculpido nos Portais de Maya, aquelas passagens místicas que conectam o ontem ao amanhã.

Quando finalmente alcançou o cume da duna ancestral,  a montanha de areia que dizem ter nascido antes mesmo da própria ilha, ela encontrou quem esperava por ela desde o princípio dos tempos: o enigmático Peixe-Abacaxi, criatura impossível com seus olhos de farol acesos voltados eternamente para o horizonte oceânico, guardião da fronteira entre a terra firme e o reino líquido das profundezas. Ali, naquele instante suspenso entre dois mundos, a Iguana finalmente compreendeu a verdade: sua jornada nunca havia sido sobre percorrer distâncias no espaço, mas sobre atravessar camadas de existência, sobre a transmutação completa da própria essência daquelas terras encantadas. Com reverência ancestral, ela ergueu a cabeça triangular e tocou delicadamente a língua bifurcada no vento que sopra desde sempre. Provou ali o gosto salgado dos séculos e sentiu o pulso secreto da ilha vibrando em sua espinha. Naquele momento mágico de conexão total, sua cauda longa e musculosa se transfigurou num chicote radiante de luz verde-elétrica, um raio vegetal que cortou o ar e tocou suavemente o altar de areia. 

A compreensão final desceu sobre ela como chuva mansa: sua existência inteira era o elo perdido, a ponte sagrada que conecta o mundo rastejante dos répteis ao reino etéreo dos mitos imortais. E quando sua missão estava completa, quando o segredo de seiva havia sido entregue ao altar e o propósito cumprido, a Iguana de Mayandeua não tomou o caminho de volta para a segurança conhecida da mata úmida dos manguezais. Em vez disso, ela simplesmente se dissolveu no próprio horizonte incendiado do poente, seu corpo verde se fundindo com o ar  até transformar-se naquela faixa esmeralda etérea que, ainda hoje, coroa o topo das dunas quando o sol se despede e a noite começa a tecer suas estrelas.

Sua odisseia permaneceu gravada na memória viva da ilha como uma história sussurrada pelo vento. Dizem os antigos que, em certas noites de lua cheia, quando as marés alcançam seu ponto mais alto e o Caboclo de Maya caminha entre os mundos, é possível ver um brilho verde-jade dançando sobre as dunas o espírito eterno da Iguana que ainda protege os segredos sagrados de Mayandeua. E aqueles que têm o coração puro e os olhos atentos podem ouvir, no silêncio entre as ondas, o sussurro ancestral que ela deixou como ensinamento final: em Mayandeua, até mesmo aquilo que se arrasta rente ao chão pode tocar o infinito do céu, desde que carregue dentro de si a coragem de atravessar portais proibidos, a sabedoria de ler os sinais ocultos do tempo, e o ritmo sagrado das marés eternas batendo no peito como um segundo coração.

E assim, a Iguana tornou-se mais que criatura — tornou-se guardiã invisível, lenda viva, e prova eterna de que os maiores tesouros de Maya não são encontrados nas areias ou nas profundezas, mas vividos intensamente por aqueles que ousam aceitar as missões impossíveis dos Caboclos antigos e caminhar com fé pelas dobras secretas do tempo.

- Assim narrou Primolius!


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0963

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