Nº 0962 - JOÃO, O MENINO CAPITÃO - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA
Às margens de um rio , vivia um garoto chamado João. Sua pele guardava o perfume úmido da chuva matinal despertando a mata, seus ouvidos conheciam de cor a gritaria colorida dos pássaros saudando cada manhã, e seu corpo havia aprendido o embalo suave das canoas que navegavam devagar, repletas de frutos da mata e peixes . Aquele rio era seu universo completo: playground sem fronteiras, via navegável e confidente silencioso.
Porém, o que realmente impulsionava João era poder velejar muito além do que seus olhos alcançavam não era somente aquela correnteza que passava em frente à sua casa dia após dia. De jeito nenhum! O coração de João abrigava aspirações maiores que a própria vastidão do seu rio. Ele sonhava com o oceano.
Um mar infinito que seus pés jamais haviam pisado, mas que existia pulsante e real dentro de sua imaginação sem limites, erguido pedra por pedra através de narrativas antigas contadas em voz baixa pelos mais velhos de sua vila , de gravuras de livros desgastados em volumes emprestados que circulavam entre vizinhos, e da própria magnitude do rio que, em determinados entardeceres , dava a impressão de se prolongar até onde o olho humano não consegue mais enxergar. (Sonhava acordado). Para João, o oceano significava muito além de simples água com gosto de sal: era a garantia concreta de aventuras ilimitadas, de expedições sem roteiros predefinidos. Era o lugar onde a imaginação moldava maremotos gigantescos e o enigma repousava nas camadas profundas de um azul que ele conhecia apenas através dos sonhos. Não bastava fantasiar com pequenos barcos de pescadores, jamais! Sua criatividade invocava embarcações grandiosas: caravelas majestosas com panos brancos que pareciam abraçar as nuvens distantes, navios corsários exibindo pavilhões escuros esvoaçando ao sabor dos ventos rebeldes, e até naves submersas brilhantes que fendiam os abismos perseguindo o inexplorado.
Nesse mar da imaginação, não nadavam apenas os peixes conhecidos como dourados e tucunarés das águas doces, mas criaturas oceânicas fantásticas que contrariavam todas as leis naturais, territórios insulares nunca mapeados transbordando de riquezas sepultadas por povos ancestrais desaparecidos, e reinos marinhos completos esperando silenciosamente por quem tivesse coragem de revelá-los. E o mais importante de tudo: nesse oceano forjado exclusivamente pela potência dos sonhos e pela determinação da vontade, João transcendia sua condição de simples garoto que morava à beira-rio.
Nesse mar sem bordas de fantasias e jornadas inimagináveis... ele se metamorfoseava no Menino Capitão.
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Prepare sua coragem e içe as velas da sua capacidade de sonhar, porque você está a ponto de aventurar-se ao lado de João pelos oceanos mais extraordinários e traiçoeiros que a criatividade humana conseguiu imaginar. Aqui se iniciam as façanhas daquele que, futuramente, acumularia milhares e milhares de relatos épicos para narrar, desde os enigmas milenares de "Mayandeua", a terra encantada onde as horas giram em espirais sem fim, até as extremidades congeladas dos oceanos árticos onde cetáceos entoam canções antigas; desde embates navais contra armadas espectrais até a localização de metrópoles afundadas protegidas por sereias combatentes; desde furacões devastadores que devoram esquadras inteiras até bonanças estranhas onde o oceano reflete perfeitamente as constelações.
Este é somente o primeiro capítulo de uma existência inteira consagrada às correntes e às embarcações, aos vendavais e às luas que comandam as marés, aos mistérios e às sagas do universo marítimo infinito.
Embarque conosco. A grande jornada mal começou.
- Assim Primolius conheceu João.... O menino Capitão.
FIM
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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0962


