* Nº 0958 - GARRAFAS DE MAYA - SÉRIE: CONTOS DE MAYANDEUA

 



Dizem que certos sonhos nascem de um brilho breve e silencioso, como um reflexo de luz sobre o vidro. Foi assim que nasceu o sonho daquele cientista solitário. Em seu pequeno laboratório, rodeado por frascos e anotações, ele buscava o impossível: aprisionar o instante fugaz em que o sol encontra a chuva e o céu se curva em cor.

As pessoas da vila o chamavam de excêntrico. Mas ele preferia pensar-se como um guardião de perguntas. Passava noites em claro, observando o luar se espalhar sobre as mesas de trabalho, enquanto os instrumentos pareciam dormir. Às vezes, sussurrava para si mesmo: “A luz é viva. E o arco-íris é a sua respiração.”

Foi nesse devaneio entre ciência e sonho que ele começou o experimento. Cada gesto era uma prece. Cada cor, uma lembrança do mundo. Ao misturar as essências, o ar se enchia de perfumes sutis: o doce da papoula, o frescor da chuva, o sal do mar. Era como se a natureza inteira o ajudasse, uma conspiração luminosa entre elementos e desejos.

Quando o arco-íris nasceu dentro da garrafa, não houve som, apenas um silêncio sagrado. As cores giravam, lentas e vivas, como se o tempo hesitasse em interromper aquele milagre. O cientista, com as mãos trêmulas, percebeu que não tinha capturado a luz, tinha libertado algo dentro dela. O arco-íris, enfim, não estava preso: habitava o vidro como quem escolhe um lar.

Desde então, sua vida mudou. O laboratório, antes um refúgio de solidão, tornou-se abrigo para quem buscava consolo e esperança. Crianças vinham para ver a luz dançar. Poetas sentavam-se no chão e escreviam versos inspirados por aquele brilho imóvel. Até os céticos, ao verem o arco-íris pulsar, saíam dali com o olhar mais leve.

Mas o cientista sabia que toda beleza precisa de liberdade. Certa manhã, ao sentir o primeiro frio da velhice nos ossos, ele caminhou até o campo e abriu uma de suas garrafas sob o sol. As cores escaparam em espirais suaves, subindo ao céu como um último suspiro de alegria. As pessoas que passavam juraram ver, naquele instante, um arco-íris maior e mais nítido do que qualquer outro.

Ele continuou a criar novas garrafas, mas agora com um novo propósito: não aprisionar o arco-íris, e sim permitir que ele descansasse, por um instante, antes de seguir viagem. “Toda luz precisa de repouso”, dizia ele.

Os anos se passaram. O cientista partiu como chegam as auroras: em silêncio, deixando o mundo mais claro. Mas suas garrafas ainda estão por aí, nas janelas de quem sonha, nas mãos de quem ensina, nos olhos de quem acredita. Algumas perderam o brilho visível, outras ainda cintilam quando o sol as toca. Todas, porém, guardam a mesma promessa: dentro de cada um de nós, há um pequeno arco-íris esperando para despertar.

E, quando chove, quem presta atenção pode ouvir o eco distante da sua voz, suave como o vidro ao vibrar: “Não busque o arco-íris no céu. Ele também mora em você.”

- Assim narrou Primolius....


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0958


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