*Nº 0957 - A VOLTA DE RAIMUNDO - SÉRIE: CRÔNICAS DE MAYANDEUA
Na penumbra do quarto, o calor parecia sussurrar o cansaço do dia. Raimundo deitou-se, exausto, sobre o colchão gasto. O ar trazia o cheiro de maresia e palha úmida. As fotografias nas paredes, presas por pregos tortos, observavam-no com a paciência dos mortos. Havia nelas uma vida que o tempo não apagava: o casamento em Mosqueiro, o barco de pesca, os filhos rindo à beira do rio. O corpo cedeu. O sono veio lento, mas firme, como o avanço da maré. Raimundo sonhou que morria.
No sonho, viu o próprio quarto, igual ao de sempre, só que vazio. O colchão sem corpo, as paredes silenciosas, as fotos amareladas. Lá fora, vozes murmuravam preces, passos se afastavam, um pranto breve se misturava ao som do vento. Raimundo quis falar, mas a voz não saiu. Quis mover-se, mas era leve demais.
Então entendeu: o corpo ficara, mas ele seguia.
Uma névoa azul se abriu diante dele, e o mar começou a chamá-lo. Não o mar que conhecia, de redes e tempestades, mas outro, um mar silencioso, de águas espessas e claras, onde as ondas respiravam como seres vivos. Ele caminhou sobre a areia fria, e a cada passo sentia que afundava um pouco mais dentro de si.
Do fundo das águas, vozes antigas começaram a cantar. Eram conhecidas, vozes de mãe, de pai, de amigos que se foram. Também havia outras, mais distantes, de gente que viveu antes dele, no tempo em que a ilha ainda era só mata e vento. Cantavam em uma língua que ele não lembrava, mas compreendia.
O mar da morte o recebeu, e Raimundo não teve medo.
Ali, percebeu que nada morria. As conchas respiravam. As plantas marítimas se moviam em ritmos que lembravam palavras. Cada relexo de água tinha dentro de si uma faísca de luz. Aquelas luzes, juntas, formavam o rosto da ilha. E a ilha o olhava, calma, dizendo sem palavras que o fim era apenas o outro lado do começo. Raimundo viu então o próprio enterro. O caixão simples, o padre, os vizinhos, o silêncio. Choravam pouco, mas lembravam muito. Ele quis tocar o ombro de um amigo, consolar a mulher que soluçava, mas as mãos passavam como vento.
Do alto, o mar da morte tremulava em tons de prata. Raimundo compreendeu o mistério: a morte não era ausência, era retorno. Era a maré voltando à origem. Quando acordou, o quarto estava igual. A luz da manhã entrava pelas frestas, e o cheiro de terra molhada enchia o ar. Por um instante, achou que nada tinha acontecido. Mas havia algo diferente: o silêncio parecia mais vivo, o ar mais leve, as fotos mais nítidas.
Lá fora, o mar batia devagar, como se respirasse.
Raimundo sorriu. Sabia agora que o mar dos mortos também tinha vida. Que cada onda era uma lembrança voltando, cada vento uma saudade que aprende a cantar. Desde aquele sonho, os pescadores juram ouvir sua voz nas madrugadas, misturada ao som das águas. E as crianças, quando brincam na maré baixa, dizem ver uma sombra que dança, leve, como se fosse o próprio vento voltando pra casa.
Porque Raimundo não morreu. Apenas aprendeu o segredo das marés: o que vai, sempre volta.


