* Nº 0954 - O CHAMADO DAS TRÊS LUAS - SÉRIE: CONTOS FANTÁSTICOS DE MAYANDEUA


Na ilha de Mayandeua, a vida pulsava ao ritmo das marés e das estrelas. Ali, destacavam-se as majestosas baleias do mundo imaginário de Maya, guardiãs ancestrais da ilha, detentoras de uma sabedoria de vários mundos. Contava-se,  que a cada cem anos as três luas que orbitavam o planeta , Selene, Nyx e Hécate, alinhavam-se em um raro instante cósmico. Nesse encontro celestial, um chamado ancestral ecoava pelo oceano, convocando as baleias a uma jornada sagrada. Não era apenas um fenômeno astronômico, mas um portal de revelação: a lembrança de que todo ser vivo é parte do mesmo sopro universal.

Na noite da grande conjunção, o céu de Mayandeua resplandeceu em prata líquida. As três luas derramavam luz sobre as águas em frente ao Boiador , e seus reflexos guiavam as baleias em direção ao desconhecido. Atendendo ao chamado, elas se reuniram, movidas por um sentimento que misturava reverência e destino. Lideradas pela matriarca, uma anciã de pele azulada e voz profunda, deixaram as águas conhecidas e mergulharam no mistério.

As primeiras horas foram um espetáculo de beleza. As baleias deslizavam em sincronia perfeita, envoltas pela luz das luas e pelos rastros luminosos dos seres menores. Parecia que as águas celebravam a travessia. Mas, como toda jornada sagrada, a calmaria não durou. As correntes se agitaram, o vento rugiu, e o mar, antes amigo, tornou-se um espelho partido. As jovens baleias temeram o caos, mas a matriarca entoou um canto grave e sereno. Seu som atravessou até Salinas, unindo todas as vozes em um coro que desafiava a fúria do mar.

Quando a tempestade enfim cessou, das profundezas emergiu uma serpente marinha colossal, com escamas e olhos que ardiam como rubis. Era a guardiã das águas antigas. Em vez de confrontá-la, a matriarca elevou um cântico suave, um gesto de paz. A música transformou a ira em quietude. A serpente curvou-se e abriu passagem, ensinando que a verdadeira força não está na violência, mas na empatia e na harmonia.

Dias depois, as baleias chegaram ao Reino dos Corais Luminosos, onde o mar parecia um sonho em movimento. Corais em tons de ouro e safira pulsavam luz própria, e pequenas criaturas marinhas dançavam em espirais cintilantes. Ali viviam os golfinhos oráculos, sábios intérpretes das vozes do oceano. Eles revelaram às baleias o sentido do chamado: Selene representava a intuição e a sabedoria interior; Nyx, o mistério e a transformação; Hécate, a renovação e o ciclo da vida. Juntas, as três luas formavam a harmonia entre todos os seres.

Seguindo as pistas, as baleias exploraram ruínas submersas cobertas de corais e silêncio. Nas paredes de um templo esquecido, encontraram uma inscrição: “Somente quem escuta o chamado, vence as provações e abre o coração à verdade atravessa o portal da iluminação.”

Refletindo sobre essas palavras, compreenderam que sua jornada não era apenas física, mas espiritual. Mais adiante, chegaram a um reino onde a magia das luas vibrava intensamente. Entre peixes que mudavam de cor e plantas que brilhavam como estrelas, encontraram a tartaruga guardiã, uma criatura colossal cuja carapaça desenhava os mapas do céu. Ela revelou que o alinhamento das três luas marcava o início de um novo ciclo de equilíbrio e paz. As baleias haviam sido escolhidas para levar essa mensagem ao mundo.

No retorno a Mayandeua, enfrentaram a prova final: um redemoinho gigantesco que ameaçava engolir tudo. Unidas em um canto de pura ressonância, as baleias criaram ondas de harmonia que acalmaram o redemoinho, atravessando-o com fé e união.

Ao emergirem, já transformadas, perceberam que não eram mais as mesmas. Carregavam em si a sabedoria do oceano e a luz das três luas. Quando voltaram à ilha, foram recebidas com festa pelos habitantes marinhos  deste lado do mar, que as esperavam próximo ao Furo Velho. As três luas, agora se pondo no horizonte, lançavam um último clarão sobre as águas — como uma bênção silenciosa.

Desde então, o povo de Mayandeua passou a celebrar o Chamado das Três Luas como um rito de comunhão com a natureza e o espírito. As baleias tornaram-se símbolo de coragem e sabedoria, lembrando a todos que a verdadeira magia nasce da harmonia entre o mar e o coração humano.

E esta  história perdura, sussurrada pelas embarcações  e pelas ondas: que a luz das três luas continue a guiar os que buscam a paz e a escuta profunda do mundo. Com o passar dos anos, a ilha de Mayandeua floresceu sob a nova luz trazida pelas baleias. A compreensão do Chamado das Três Luas se aprofundou, tornando-se um ensinamento central na vida da comunidade. As crianças aprendiam desde cedo sobre Selene, Nyx e Hécate, e sobre a importância de cultivar a intuição, abraçar a mudança e honrar os ciclos da vida.

A matriarca, agora ainda mais sábia, continuava a liderar as baleias em suas jornadas. A cada Chamado, novas gerações se juntavam à procissão, aprendendo com a experiência dos mais velhos e descobrindo os mistérios do oceano profundo. A serpente marinha, antes temida, tornou-se uma aliada, protegendo as baleias e guiando-as por caminhos seguros. Os golfinhos oráculos compartilhavam suas visões, ajudando a comunidade a antecipar desafios e a encontrar soluções criativas.

Um dia, uma nova ameaça surgiu: a poluição dos oceanos. Lixo, produtos químicos e ruídos excessivos começaram a perturbar a harmonia do mundo marinho, afetando a saúde das baleias e de outros seres vivos. A matriarca convocou uma reunião de todos os seres conscientes do oceano: baleias, golfinhos, tartarugas, serpentes marinhas e até mesmo os corais luminosos. Juntos, eles elaboraram um plano para combater a poluição e restaurar o equilíbrio do oceano.

E assim, a história do Chamado das Três Luas continuou a ser contada, inspirando novas gerações a proteger a ilha e a buscar a paz interior. A luz das três luas, brilhando sobre Mayandeua, tornou-se um farol de esperança para um futuro mais sustentável e harmonioso.

- E assim narrou Primolius.... sob os "luares" desta maravilhosa ilha...


FIM

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Projeto Literário e Musical Primolius N° 0954

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